Os bebés são todos diferentes! Aquele bebé chora muito…fico tão cansada ….aquele quase não chora até me esqueço. E este é o Pipo que me diverte muito porque é só sorrisos!” (observação de uma educadora estagiária). A forma como o bebé regula emoções afeta o seu bem-estar e desenvolvimento social, emocional e cognitivo, enquanto, molda a sua relação com os outros. E qual o papel do/a educador/a?

Regulação de Emoções, o que sabemos?

Os bebés nascem altamente equipados, com comportamentos instintivos, para reagir aos estímulos sociais e ambientais. Assim que nasce, o bebé vai aprender a usar esses reflexos e respostas comportamentais para agir no mundo. Aos três meses, o cérebro do bebé já é uma “maquinaria complexa” – melhor do que qualquer computador ou rede neuronal que possamos conhecer atualmente. Ele é eficiente a ler, a prever e a reagir ao comportamento dos seus parceiros interativos.

A investigação, desenvolvida em Portugal, permitiu compreender que ao longo do primeiro ano, os bebés desenvolvem estilos de regulação emocional organizados (1, 2):

Estilo Socialmente Positivo – Este bebé apresenta, geralmente, comportamentos positivos. Contudo, quando sente receio pode apresentar comportamentos negativos (e.g., choro) – a sua forma de comunicar emoções. Porém, se o adulto apoiar a criança com uma comunicação apaguizadora e reorganizadora – este bebé regressa à interação normal e conforta-se.

Estilo Socialmente Negativo – é estilo comportamental é o contrário do anterior, o bebé apresenta sobretudo respostas negativas e dificilmente recupera.

Estilo Orientado para auto-conforto – estes bebés aprendem desde cedo a inibir o choro e a não expressar emoções negativas mas com grande desconforto. O bebé não se zanga, não recupera e não dá sinais de ser feliz.

Promoção de comportamentos positivos

O que distingue o bebé socialmente positivo dos restantes é: que ele aprendeu a regular emoções na interação com as suas figuras parentais e educadores preferenciais (3). Este bebé confia que se pode zangar (porque os outros são capazes de lidar com isso) mas, também, que é capaz de se controlar (e os outros ajudarão). Por fim, aprende que o seu esforço é valorizado (acabando a receber sorrisos). Em suma, o bebé com um estilo socialmente positivo aprende a contribuir para a regulação das suas emoções e das emoções dos outros(4). Esta aquisição é chave!

Este bebé construiu a expetativa que os outros ajudam e aprende que ele também pode ajudar na regulação da interação. Assim, quando o adulto está distraído – sorri para atrair o adulto e receber atenção. Mas se adulto estiver zangado, pode distanciar-se (evitar o olhar do adulto) dando espaço ao seu cuidador e, passados alguns segundos, o bebé tenta de novo reparar a interação com comportamentos positivos (oferece um brinquedo ou sorriso para o adulto se reparar).

Imagine como é importante para o bebé fazer estas aprendizagens(5). Aprende que pode obter atenção e respostas através de uma diversidade de estratégias positivas! Aprende que é socialmente competente (autoestima) ao adquirir mestria e sentido de eficácia social! Desenvolve-se cognitivamente uma vez a organização mental destas estratégias requer elaboração e sofisticação cognitiva.

Qual o papel do Educador? Sobretudo dar espaço ao bebé para contribuir nas interações!

Não se sobreponha nem interrompa os esforços do bebé (e.g., às vezes o bebé é tão adorável a palrar ou a sorrir para o adulto… que só apetece dar beijinhos!). O bebé tem de aprender a contribuir para as emoções dos outros para ser competente com as suas emoções.

Não reaja ao primeiro choro de frustração, fale tranquilamente e carinhosamente. Acompanhe o seu esforço com empatia e confie na sua capacidade de recuperar. Não o distrai-a com outros estímulos, ele está aprender a regular-se.

Não adivinhe o que é que bebé quer ou precisa, deixe-o pedir e reaja positivamente.

Estar atento e valorizar os esforços de participação (e.g., pedidos de atenção, devoluções). É agarrar esses momentos! O bebé deve aprender a ajudar, a reparar, a perdoar…para o fazer tem de se colocar e compreender o ponto de vista do outro, aprender a aceitar a diferença e a imperfeição, fazer compromissos, i.e., construir competências sociais!

Não se zangue quando o bebé se zanga, regule as suas emoções como deseja que o bebé regule as suas. Não se esqueça que a regulação emocional é uma coconstrução (comportamentos negativos geram ansiedade e perturbação no outro – ativando ciclos de interações negativas)!

A regulação de emoções é um espaço partilhado e construído com os outros!

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Referências

  1. Fuertes, M., Lopes-dos-Santos, P., Beeghly, M., & Tronick, E. (2009). Infant Coping and Maternal Interactive Behavior Predict Attachment in a Portuguese Sample of Healthy Preterm Infants. European Psychologist, 14(4), 320-331. doi: 10.1027/10169040.14.4.320.
  2. Barbosa, M., Beeghly, M., Moreira, J., Tronick, E. & Fuertes, M. (2018). Robust stability and physiological correlates of infants´ patterns of regulatory behavior in the still-face paradigm at 3 and 9 months. Developmental Psychology, 54(11):2032-2042. doi: 10.1037/dev0000616
  3. Fuertes, M., Beeghly, M., Lopes-dos-Santos, P., & Tronick, E. (2012). Both Infant and Dyadic factors contributes to infants´ coping styles during Still-Face in sample of prematurely born Portuguese infants, Análise Psicológica, 4 (XXIX), 553-565. doi: 10.14417/ap.103.
  4. Tronick, E. Z. (2007). The neurobehavioral and social-emotional development of infants and children. New York, NY: Norton.
  5. Beeghly, M., Perry, B., & Tronick, E. (2016). Self-regulatory processes in early development. In S. Maltzman (Ed.), The Oxford handbook of treatment processes and outcomes in counseling psychology: A multidisciplinary biopsychosocial approach (pp 42-54).New York: Oxford University Press. doi: 10.1093/oxfordhb/9780199739134.013.3
Eu não me zango, se tu não te zangares! Será a (Des)regulação emocional do bebé, do/a educador/a ou de ambos?

Marina Fuertes

Marina Fuertes é Professora Coordenadora da Escola Superior de Educação (Instituto Politécnico de Lisboa) e membro integrado do Centro de Psicologia da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP). É doutorada e mestre em Psicologia com pós-doutoramento em Harvard Medical School. Obteve vários financiamentos e prémios científicos tendo publicado diversos artigos – recentemente na Developmental Psychology.

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