A qualidade da relação que os/as educadores/as de infância estabelecem com colegas e com a direção/coordenação é um dos fatores que mais contribui para o seu bem-estar. De facto, a experiência de relações positivas com os outros (R – Relações) surge como um dos cinco elementos chave para o bem-estar ou florescimento dos indivíduos, de acordo com um dos modelos mais influentes da Psicologia Positiva – o modelo PERMA, de Martin Seligman [1].

Numa época em que é recomendado o distanciamento físico devido à pandemia por COVID-19, importa cultivar relações positivas e significativas no contexto de trabalho e, assim, potenciar o bem-estar dos/as educadores/as de infância. Para o efeito, apresentamos, em seguida, um conjunto de práticas enquadradas pelo paradigma da Psicologia Positiva [2], sublinhando desde já o papel que a coordenação/direção desempenha em termos de modelo e suporte:

  • Cultivar o hábito de expressar gratidão. A gratidão é considerada um recurso individual fundamental para o estabelecimento de relações positivas entre as pessoas [3], incluindo no contexto de trabalho [4]. Contempla duas componentes: por um lado, notamos e apreciamos que existem coisas boas na nossa vida e no mundo; por outro lado, reconhecemos que os outros nos apoiaram de alguma maneira [3, 5]. Exemplo: Construir um mural da gratidão num espaço partilhado pela equipa de trabalho. Nesse mural, os/as profissionais podem partilhar “três coisas boas que aconteceram hoje”.
  • Praticar atos de bondade. Uma das formas mais poderosas para potenciar o bem-estar é envolver-se em comportamentos pró-sociais, como por exemplo, realizar atos de bondade (por exemplo, elogiar, ajudar um/a colega numa tarefa). Não importa a dimensão do ato. O mais importante é que deve beneficiar a outra pessoa de alguma maneira. A investigação tem documentado benefícios desta prática não só para o alvo (i.e., recetor do ato de bondade), mas também para o agente (i.e., a pessoa que pratica o ato de bondade). Além disso, este tipo de ato pró-social parece ser contagioso, ou seja, pode inspirar as outras pessoas a agirem da mesma maneira [6]. Exemplo: Numa reunião, elogiar de forma sincera um/a colega relativamente a algo que apreciou no seu trabalho. Certificar-se que olha para ele/a e que usa o seu nome.
  • Responder de forma ativa e construtiva. A resposta ativa e construtiva é uma estratégia comunicativa que podemos utilizar quando respondemos a alguém que partilhou connosco algo positivo e que parece beneficiar o bem-estar do indivíduo e a relação com os outros (confiança, proximidade). Envolve interesse genuíno, entusiasmo e suporte relativamente a um evento vivido por outra pessoa [7]. Exemplo: Quando algum/a colega no contexto de trabalho conta uma boa notícia, ser ativo/a e construtivo/a na resposta. Escutar ativamente e dizer algo encorajador sobre o que ouviu.
  • Participar em eventos sociais positivos com colegas de trabalho. Qualquer oportunidade que permita à equipa de trabalho passar algum tempo em conjunto longe das tarefas e das conversas relacionadas com o trabalho (por exemplo, almoço partilhado uma vez por mês; dez minutos de conversa casual antes ou depois das reuniões de equipa) promove o fortalecimento das relações entre os/as profissionais. O ideal é que a organização destes momentos decorra da iniciativa da equipa, ainda que o suporte da direção seja igualmente fundamental [8].

Será suficiente cultivar a qualidade das relações no contexto de trabalho?

As sugestões apresentadas nesta mensagem representam apenas uma “porção” de uma discussão mais alargada sobre as iniciativas a adotar para potenciar o bem-estar dos/as educadores/as de infância e das instituições como um todo. Além das relações positivas, o modelo PERMA alerta-nos para outros elementos fundamentais para o bem-estar individual: emoções positivas, envolvimento, significado e realização. Paralelamente, sendo o bem-estar dos/as educadores/as de infância uma responsabilidade partilhada, o modelo PERMA pode constituir uma ferramenta relevante a nível organizacional para apoiar as instituições na definição e implementação de políticas e de práticas de suporte ao bem-estar dos/as educadores/as de infância. Qualquer abordagem neste sentido deve incluir, obrigatoriamente, a análise e o ajuste das condições de trabalho que podem representar fatores constrangedores do bem-estar (por exemplo, sobrecarga de trabalho, falta de autonomia).

Para reflexão…

  • Em que medida considera que estas práticas podem potenciar o seu bem-estar?
  • O que gostaria de melhorar no próximo ano letivo de forma a cultivar relações positivas e significativas no seu contexto de trabalho?
  • É diretor/a ou coordenador/a? Que tipo de iniciativas promoveu no último ano para potenciar o bem-estar dos/as educadores/as de infância da sua instituição?

Mensagem escrita em colaboração com Joana Cadima, Professora auxiliar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto.

Referências

[1] Seligman, M. E. P. (2012). A vida que floresce. Estrela Polar.

[2] Falecki, D., & Mann, E. (2021). Practical applications for building teacher wellbeing in education. In C. F. Mansfield (Ed.), Cultivating teacher resilience (pp. 175-191). Springer.

[3] Emmons, R.A. (2010). Why gratitude is good. Greater Good Magazine. Berkeley. https://greatergood.berkeley.edu/article/item/why_gratitude_is_good

[4] Hu, X., & Kaplan, S. (2014). Is “feeling good” good enough? Differentiating discrete positive emotions at work. Journal of Organizational Behavior, 36, 39–58. https://doi.org/10.1002/job.1941

[5] McKenna, L. (2019). Making wellbeing practical: An effective guide to helping schools THRIVE. Unleashing Personal Potential.

[6] Chancellor, J., Margolis, S., Bao, K. J., & Lyubomirsky, S. (2018). Everyday prosociality in the workplace: The benefits of giving, getting, and glimpsing. Emotion, 18(4), 507-517. https://doi.org/10.1037/emo0000321

[7] Gable, S. L., Gonzaga, G. C., & Strachman, A. (2006). Will you be there for me when things go right? Supportive responses to positive event disclosures. Journal of Personality and Social Psychology, 91(5), 904–917. https://doi.org/10.1037/0022-3514.91.5.904

[8] Jones, C., Hadley, F., Waniganayake, M., & Johnstone, M. (2019). Find your tribe! Early childhood educators defining and identifying key factors that support their workplace wellbeing. Australasian Journal of Early Childhood, 44(4), 326–338. https://doi.org/10.1177/1836939119870906.

Relações positivas e significativas no contexto de trabalho: Como cultivá-las?

Carla Peixoto

Licenciada e doutorada em Psicologia pela Universidade do Porto, com especialidade em psicologia da educação pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Docente no Instituto Universitário da Maia (ISMAI) e investigadora no inED - Centro de Investigação e Inovação em Educação da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto. Tem como principais interesses de intervenção e de investigação as questões relacionadas com a literacia emergente, a aprendizagem socioemocional e a qualidade dos principais contextos de desenvolvimento dos indivíduos.

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