A educadora Maria José é coordenadora pedagógica de um jardim-de-infância há mais de 20 anos e refere que nunca sentiu tantos desafios na sua atividade como no último ano. A pandemia veio agravar algumas das suas preocupações, sendo o bem-estar dos/as profissionais da instituição uma delas.

Sabendo que os/as profissionais de educação, incluindo os/as educadores/as de infância [1], apresentam um elevado risco de stresse e burnout [2], importa, hoje mais do que nunca, considerar o bem-estar destes/as profissionais como uma prioridade.

Por que é importante o bem-estar dos/as educadores/as de infância?

O bem-estar dos/as educadores/as de infância tem sido identificado como um fator que pode influenciar a sua disponibilidade para adotarem práticas educativas de elevada qualidade (incluindo o estabelecimento de interações sensíveis, responsivas e estimulantes com as crianças [1, 3]), que desempenham, por sua vez, um papel determinante no desenvolvimento e na aprendizagem das crianças [4]. No entanto, os/as educadores/as de infância enfrentam diariamente uma miríade de desafios associados ao exercício da sua profissão, que se complexificou com a crise pandémica [1, 5], tal como relatado pela educadora Maria José. Estes desafios podem afetar negativamente o bem-estar destes/as profissionais [5] e, consequentemente, as interações que estabelecem diariamente com as crianças [5, 6]. A título de exemplo, os/as educadores/as de infância que sentem mais stresse ou exaustão parecem: (a) ser menos sensíveis e responsivos/as nas suas interações com as crianças, (b) despender menos tempo na planificação das atividades, assim como (c) ser mais reativos/as do que proativos/as na gestão do comportamento das crianças [6].

Responsabilidade individual ou responsabilidade partilhada?

A atuação do/a educador/a de infância é caracterizada por diversas exigências físicas, emocionais, relacionais e políticas, entre outras [7]. Assumindo que o bem-estar destes/as profissionais pode ser entendido como “um estado dinâmico, que envolve a inter-relação de aspetos individuais, relacionais, contextuais e sociopolíticos” [7, p. 276], este não pode ser visto apenas como sendo da sua responsabilidade, mas também do âmbito de atuação dos diferentes agentes do seu contexto de trabalho [7].

A investigação tem salientado diversos aspetos associados ao contexto de trabalho que podem interferir positiva ou negativamente no bem-estar dos/as educadores/as de infância, como: oportunidades de progressão na carreira, rácio adulto-crianças, recursos materiais, grau de autonomia percebida, participação nos processos de tomada de decisão [8]. As relações que os/as profissionais estabelecem com a coordenação/direção e com os/as outros/as profissionais do contexto de trabalho surgem como um fator particularmente relevante nesta dinâmica [3, 9]. Os/as educadores/as de infância que reportam menos stresse são aqueles/as que trabalham em instituições em que o trabalho em equipa é encorajado e onde experienciam relações de apoio por parte da coordenação/direção e com os/as outros/as profissionais da instituição [9].

Pese embora a relevância do bem-estar dos/as educadores/as de infância, este tópico parece ser ainda invisível nas políticas e nos documentos orientadores das práticas educativas um pouco por todo mundo [7]. No entanto, importa destacar que, na sequência da pandemia COVID-19, foram divulgados vários recursos de suporte aos/às profissionais, incluindo em Portugal, tais como:

Nesta mensagem destacamos que as condições relacionais do contexto de trabalho podem “fazer a diferença” no bem-estar dos/as educadores/as de infância. Na próxima mensagem iremos abordar um conjunto de recomendações para a ação.

Até lá, partilhe connosco…

  • Que aspetos relacionados com o seu trabalho afetam mais o seu bem-estar?
  • De que tipo de apoio precisam os/as educadores/as de infância para potenciar o seu bem-estar?

Mensagem escrita em colaboração com Joana Cadima, Professora auxiliar na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto.

Referências

[1] Jennings, P. A., Jeon, L., & Roberts, A. M. (2020). Introduction to the special issue on early care and education professionals’ social and emotional well-being. Early Education and Development, 31(7), 933-939. https://doi.org/10.1080/10409289.2020.1809895

[2] Marques-Pinto, A., & Alvarez, M. J. (2016). Promoção da saúde ocupacional em contexto escolar: Da saúde física ao bem-estar profissional dos professores. In M. J. Chambel (Coord.), Psicologia da saúde ocupacional (pp. 135-166). Pactor.

[3] Cumming, T. (2017). Early childhood educators’ well-being: An update review of the literature. Early Childhood Education Journal, 45, 583-593. https://doi.org/10.1007/s10643-016-0818-6

[4] Cadima, J., Verschueren, K., Leal, T., & Guedes, C. (2016). Classroom interactions, dyadic teacher–child relationships, and self-regulation. Journal of Abnormal Child Psychology, 44, 7-17. https://doi.org/10.1007/s10802-015-0060-5

[5] Eadi, P., Levickis, P., Murray, L, Page, J., Elek, C., & Church, A. (2021). Early childhood educators’ wellbeing during COVID-19 pandemic. Early Childhood Education Journal, 1 – 11. https://doi.org/10.1007/s10643-021-01203-3

[6] Penttinen, V., Pakarinen, E., von Suchodoletz, A., & Lerkkanen, M.-K. (2020). Relations between kindergarten teachers’ occupational well-being and the quality of teacher-child interactions. Early Education and Development, 1–17. https://doi.org/10.1080/10409289.2020.1785265

[7] Cumming, T., Logan, H., & Wong, S. (2020). A critique of the discursive landscape: Challenging the invisibility of early childhood educators’ well-being. Contemporary Issues in Early Childhood, 1-15.https://doi.org/10.1177/1463949120928430

[8] ET2020 Working group (2021). Early Childhood Education and Care: How to recruit, train and motivate well-qualified staff. Publications Office of the European Union, European Commission.

[9] Smith, S., & Lawrence, S. (2019). Early care and education teacher well-being: Associations with children’s experience, outcomes, and workplace conditions. Child Care & Early Education Research Connections. https:// www.nccp.org/publication/early-care-and-education-teach er-well-being/

[10] Sarmento, M., & Bento, G. (Coord.) (2020). Redescobrir a qualidade da educação de infância em tempos de mudança [Publicação eletrónica]. ProChild CoLAB. http://prochildcolab.pt/wp-content/uploads/2020/05/covid-19-educacao-de-infancia-1.pdf

[11] Ministério da Educação & Ordem dos Psicólogos Portugueses (2020). Recursos para o bem-estar [Publicação eletrónica]. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/recursos_para_o_bem-estar.pdf

SOS: Bem-estar de educadores/as de infância

Carla Peixoto

Licenciada e doutorada em Psicologia pela Universidade do Porto, com especialidade em psicologia da educação pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Docente no Instituto Universitário da Maia (ISMAI) e investigadora no inED - Centro de Investigação e Inovação em Educação da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto. Tem como principais interesses de intervenção e de investigação as questões relacionadas com a literacia emergente, a aprendizagem socioemocional e a qualidade dos principais contextos de desenvolvimento dos indivíduos.

2 comentários sobre “SOS: Bem-estar de educadores/as de infância

  • 13/06/2021 at 17:01
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    Os aspetos que afetam mais o meu bem-estar como educadora são o ter ou não liberdade por parte de superiores hierárquicos (coordenadores de departamento e/ou diretores de agrupamento) para desenvolver práticas pedagógicas não escolarizantes e de acordo com as OCEPE na sua plenitude; julgamento, por colegas, que usam metodologias transmissivas, do meu modo de trabalhar; pressão, por parte de alguns quadrantes da transformação da educação de infância numa pré-escola, no sentido literal da palavra.

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  • 13/06/2021 at 17:13
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    Relativamente ao tipo de apoio que os educadores de infância necessitam, a minha opinião vai no sentido de mais e melhor formação das(os) Assistentes Operacionais que são parceiras(os) fundamentais no quotidiano educativo mas que nem sempre compreendem a intencionalidade educativa e maior união entre a classe profissional com um discurso e uma prática pedagógica mais consensual que crie menos confusão nas famílias na hora de escolher qual o jardim de infância em que vão colocar o seu educando, se aquele em que se brinca muito porque brincar é importante ou aquele em que se fazem muitas fichas porque é preciso preparar para o 1º ciclo.

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