A prematuridade é a principal causa de morte infantil peri e pós-parto. Cerca de 9% dos bebés nascem prematuramente, ou seja, com idade gestacional inferior a 37 semanas. O número de semanas de desenvolvimento intrauterino condiciona fortemente o desenvolvimento e saúde dos bebés. Com efeito, as complicações associadas a um nascimento prematuro agravam-se com a diminuição da idade gestacional (especialmente abaixo de 32 semanas) e do peso gestacional [2, 3], destacando-se: risco de vida, lesões neurológicas, problema de visão ou audição, complicações de saúde (e.g., respiratórias, cardíacas, imunológicos, renais) [1, 2].

A prematuridade segundo o bebé

O bebé nascido muito prematuramente (antes das 32 semanas), fica isolado numa caixa climatizada, convive com a dor, recebe cuidados invasivos que são prestados por diversas pessoas (raramente pelos pais), pode ser intubado e é despertado por sons de alarme. O internamento pode durar várias semanas. Contudo, atualmente a maioria dos bebés prematuros consegue sobreviver sem sequelas graves. É surpreendente que, perante tantas adversidades, estes bebés consigam atingir níveis esperados de desenvolvimento, de qualidade de vida e de saúde [2].

A prematuridade segundo os pais

A maioria das mães dos bebés de termo quando o seu bebé nasce sentem amor, ultrapassam o parto, centrando-se nos cuidados e perspetivando o futuro pós-alta [3]. Contudo, as mães dos bebés muito prematuros vivem uma experiência distinta. A experiência é descrita como traumática, os sentimentos confundem-se entre o medo de perder o bebé, o receio que sobreviva com sequelas e o amor sentido. O presente é o único foco e antecipar o futuro é doloroso [3]. Os pais vivem igualmente dor, enquanto sentem que têm o papel de apoiar as mães e lidam com a responsabilidade de informar familiares e amigos [3].

As dificuldades do bebé poderão ser agravadas se os pais não se sentirem confiantes no seu papel e/ou se sentirem dificuldade na prestação de cuidados parentais.

Mais tarde na creche e no jardim de infância

Os profissionais de educação na sua prática com bebés/crianças de pré-termo devem considerar três aspetos essenciais:

A relação estabelecida com a família. Na creche, é preciso acolher as famílias destes bebés, gerando um sentimento de segurança e promovendo uma comunicação aberta, honesta e regular com a família. Agora, como na neonatologia, os pais partilham os cuidados do seu bebé com profissionais, o que gera, por vezes, medo, perda e impotência [4]. Os/as educadores/as devem considerar a experiência vivida pelos pais e formar com eles uma aliança. Não bastará dizer aos pais que não sintam receio ou ansiedade, é preciso responder às suas dúvidas, ter disponibilidade para os ouvir e comunicar informação de forma clara e objetiva.

Atenção aos aspetos desenvolvimentais. O bebé prematuro pode apresentar ao longo do seu desenvolvimento défices ligeiros ou moderados. Os problemas de visão (como a discriminação visual) e de audição são os mais frequentes, existindo também problemas vestibulares, de equilíbrio, de tonicidade, coordenação motora fina, linguagem, entre outros. O profissional de educação tem conhecimento, experiência e tempo com a criança, conseguindo por vezes identificar estas alterações, que podem não ser detetadas pelos pais. O seu papel será fundamental ao ajudar os pais a identificar e a procurar respostas adequadas.

O segredo está no primeiro ponto: se foi estabelecida uma aliança entre pais e educadores, a comunicação franca decorre naturalmente.

Estabelecimento de práticas inclusivas e adaptadas às características da criança. Todas as crianças são diferentes, e os bebés ou crianças nascidas prematuramente também não são um grupo uniforme com características comuns. O/a educador/a deve adaptar estratégias e materiais a cada criança. O apoio dos profissionais de saúde ou de Intervenção Precoce é fundamental, na hora de sentar o bebé, de alimentar, etc. Se o bebé chora quando lhe mudam a fralda, se tem refluxo durante a alimentação, se cai quando é sentado, são precisas adaptações, e pais e educadores podem contar com o apoio da Intervenção Precoce. Sobretudo, o tempo e a latência da resposta do bebé prematuro podem ser distintos e o adulto deve acompanhar o seu ritmo, esperando com paciência e aceitação.

Importa não desistir e criar oportunidades facilitadoras da aprendizagem!

Não se esqueça que está na presença de um herói.

Votos de boas práticas!

Mensagem escrita em colaboração com Ana Rita Almeida: Licenciada em Reabilitação Psicomotora, Mestre em Intervenção Precoce e, atualmente, Bolseira de doutoramento no Programa de Doutoramentos da Faculdade de Psicologia, da Universidade de Lisboa, na especialidade de Psicologia Clínica e da Saúde.

Referências

[1] Antunes, S., Fuertes, M., & Moreira, J. (2020). Um olhar sobre a Grande Prematuridade: A investigação com bebés nascidos com menos de 32 semanas de gestação. In Fuertes, M., et al. (2020, org.). Teoria, Praticas e Investigação II (pp.132-180). CIED: Escola Superior de Educação de Lisboa. ISBN 978-989-8912-02-2

[2] Fuertes, M., Justo, M., Barbosa, M., Leopoldo, L., Lopes, J., Gomes Pedro, J. & Sparrow, J. (2012). Infants prematurely born: Socio-emotional Development and Early Intervention. Diogo Contreiras and Johann Sampaio (Eds.). In Preterm Infants: Development, Prognosis and Potential Complications(pp. 100-125). NY: Nova Science Publishers, Inc. ISBN: 978-1-62081-852-7

[3] Gonçalves, J., Fuertes, M., Alves, M. J., Antunes, S., Almeida, R., Casimiro, R., & Santos, M. (2020). Maternal representations in Portuguese dyads with full-term, pre-term and extremely pre-term. BMC Pregnancy and Childbirth, 20, 1-16 doi: 10.1186/s12884-020-02934-8

Heróis antes do tempo: a prática pedagógica com o bebé de pré-termo

Marina Fuertes

Marina Fuertes é Professora Coordenadora com Agregação da Escola Superior de Educação (Instituto Politécnico de Lisboa) e membro integrado do Centro de Psicologia da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP). É doutorada e mestre em Psicologia com pós-doutoramento na Harvard Medical School. Obteve vários financiamentos e prémios científicos tendo publicado diversos artigos – recentemente na Developmental Psychology.

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