Promover a autodeterminação, proporcionando oportunidades de escola

“Quero trocar a fralda depois do mano” (…) “Começo a fazer dieta depois do fim-de-semana”

As duas frases têm em comum a escolha e o sentido de controlo. Separa-as o tempo e todas as vivências que nos levam de uma criança que escolhe a um adulto que decide. A primeira situação é tipicamente instigada por alguém que mostra à criança – mesmo dentro da inevitabilidade de um acontecimento ou de uma rotina (como é trocar a fralda) – a possibilidade de escolher (queres agora ou depois do mano?). Já a segunda é, na maior parte das vezes, o/a próprio/a que identifica e inicia essa oportunidade (neste caso, a possibilidade de procrastinar!). Esta conquista de autonomia depende do contexto, de quanto e de como nos desperta e capacita para a escolha.

Nesta mensagem, falamos da expansão e da estruturação de oportunidades de escolha nas rotinas de jardim-de-infância (JI).

Qual a importância das oportunidades de escolha nas rotinas do JI?

Oportunidade de Escolha traduz-se numa sequência de ações que inclui:

(1) dar à criança duas ou mais opções;

(2) permitir a seleção de uma opção com base na preferência individual;

(3) dar a opção selecionada.

Mais do que a soma dos atos, as oportunidades de escolha permitem à criança sentido de controlo e ter uma maior previsibilidade do contexto. É, por essa razão, uma condição que se considera precursora da autodeterminação – quanto ao sentido e capacidade de dirigir a própria vida. Para além dos efeitos óbvios e de longo termo no cultivo da autodeterminação, existem resultados positivos que, no imediato, decorrem das oportunidades de escolha.

O mote desta mensagem pode ser usado como exemplo disso mesmo. Quantas vezes o ir mudar a fralda não representa uma luta de poder entre o adulto e a criança? A oportunidade “queres agora ou depois do mano?” é uma forma de a criança, sabendo que a fralda será mudada, ter algum controlo sobre a situação.

A literatura [1, 2, 3] mostra que as oportunidades de escolha são estratégias eficazes para a gestão do comportamento. Quando as tarefas são antecedidas de escolha, as crianças:

– ficam mais tempo envolvidas e de um modo mais autónomo;

– mostram comportamentos mais pró-sociais e menos problemáticos;

– relacionam-se melhor entre si e com o/a educador/a.

Sendo consensual que as oportunidades de escolha trazem qualidade ao contexto de JI, a sua implementação de modo intencional e sistematizado tem ganhado particular relevo no trajeto educativo de crianças com desenvolvimento atípico. Por determinantes pessoais e contextuais, as crianças com desenvolvimento atípico experimentam mais restrições no desenvolvimento da autodeterminação, em geral, e na competência para fazer escolhas, em particular [2, 4]. Há, por isso, maior necessidade de expandir e de estruturar estas oportunidades no seu quotidiano.

Como promover oportunidades de escolha?

Para expandir as oportunidades de escolha, é importante começar por mapear as rotinas de JI e, para cada momento, identificar situações onde o adulto possa evocar e estruturar a escolha. Podem ser pensados e promovidos diferentes tipos de escolha [1, 5]:

Onde – o local em que a criança irá fazer a tarefa ou brincar (e.g., queres ouvir a história na mesa ou no tapete?).

Quando – o momento em que a criança irá começar ou terminar a tarefa ou o brincar (e.g., escolheste as tuas cores, estás pronta a começar? Até onde vais pintar para fazeres uma pausa? O que queres fazer primeiro?).

Com o quê – os materiais específicos que a criança precisa para completar o trabalho ou para brincar (e.g., queres usar lápis de cor ou marcadores?).

Com quem – as pessoas com quem irá brincar ou realizar a tarefa (e.g., queres sentar-te comigo ou ficar perto do/a teu/tua amigo/a?).

O quê – a atividade ou o brincar em que a criança se vai envolver ou realizar (e.g., o que queres fazer depois?).

Para apoiar e estruturar a competência de “fazer escolhas” é importante [1, 3, 5]:

dar escolhas pequenas e tangíveis acerca dos passos imediatamente seguintes; por exemplo, promover escolhas durante a própria atividade, com opções que estejam ao alcance físico ou no horizonte visual da criança;

estabelecer, primeiramente, um número limitado de opções de escolha; por exemplo, começar por apresentar apenas duas ou três opções (e.g., “queres ir para a biblioteca, a casinha ou a garagem”?);

mostrar cada uma das opções apontando para elas, tendo por referência objetos ou dando informação visual;

ser consistente na apresentação e resposta à escolha; por exemplo, manter as mesmas opções numa determinada área; e responder à escolha da criança, dando-lhe a opção selecionada;

combinar gradual e sequencialmente outros tipos de escolha; por exemplo, quando a criança escolhe que material usar na atividade (com o quê), colocar à criança a possibilidade de escolher onde (na sala) quer pôr em prática a opção escolhida.

Nesta mensagem, mostramos que promover oportunidades de escolha não significa prescindir de uma rotina, de um plano, de uma calendarização de atividades, mas, antes, dar sentido de controlo às crianças sobre variantes implícitas aos diferentes momentos do dia a dia. Significa dar à criança o poder de influenciar as atividades ou tarefas através da escolha.

É certo que estas escolhas básicas e concretas não contêm, em si, grande significado comparativamente àquelas que terá de fazer no futuro; contudo, este exercício de escolha, é um precursor fundamental para a tomada de decisões, a resolução de problemas e a definição de objetivos na vida adulta.

E agora? Que texto escolhe ler (o quê?)? Antes ou depois de um café (quando)? Na sala ou no escritório (onde)? (…)

Mensagem escrita em colaboração com Joana Baptista Borges – Diretora Pedagógica e Educadora de Infância do Jardim-de-Infância Quinta Amarela.

Referências

[1] Jolivette, K., Stichter, J., Silisky, S., Scott, T., & Ridgley, R (2002). Naturally occurring opportunities for preschool children with and without disabilities to make choices. Education and Treatment of Children, 25(4), 396-414. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/42899719

[2] Jolivette, K., Stichter, J., & McCormick, K. (2002). Making choices – improving behavior – engaging in learning. Teaching Exceptional Children, 34(3), 24-30. https://doi.org/10.1177/004005990203400303

[3] Green, K., Mays, N., & Jolivette, K. (2011). Making choices: A proactive way to improve behaviors for young children with challenging behaviors. Beyond Behavior, 25-31. Disponível em: https://gseuphsdlibrary.files.wordpress.com/2013/03/making-choices.pdf

[4] Palmer, S., et al (2012). Foundations for self-determination in early childhood: An inclusive model for children with disabilities. Topics in Early Childhood Special Education, 33(1), 38-47. https://doi.org/10.1177/0271121412445288

[5] Borges, J. (2015). A expansão sistematizada de oportunidades de escolha como estratégia de suporte à participação (Dissertação de Mestrado não publicada). Instituto politécnico do Porto, Porto, Portugal. Disponível em https://recipp.ipp.pt/handle/10400.22/6775

Oportunidades de escolha – como cultivar a autodeterminação na infância?

Mónica Silveira Maia

Terapeuta Ocupacional, Doutorada em Psicologia pela Universidade do Porto (2012). É Professora Adjunta na Escola Superior de Educação do Politécnico do Porto e investigadora no inED - Centro de Investigação e Inovação em Educação. Dedicada em particular ao tema da habilitação ambiental, os seus trabalhos de investigação focam o estudo de perfis de funcionamento e a sistematização de variáveis ambientais facilitadoras da participação e inclusão social de crianças e jovens com necessidades adicionais de suporte.

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