O recente episódio de violência policial contra um homem afro-americano, ocorrido nos Estados Unidos, confronta-nos, uma vez mais, com factos sobre os quais devemos refletir. Questões de racismo e discriminação estão presentes em situações do nosso dia-a-dia. Quais os seus efeitos em crianças de diversas origens socioeconómicas e culturais? E que ensinamentos poderemos retirar para a Educação na Primeira Infância? Comecemos pelo princípio: porque é que as pessoas discriminam?

Fundamento teórico da discriminação

O cérebro humano está programado para categorizar, e até os bebés são capazes de distinguir sons, imagens, contornos e cores, conseguindo agrupar as pessoas de acordo com estas características. Isto ajuda-nos a compreender o mundo que nos rodeia e como responder aos estímulos sociais do nosso ambiente. Porém, quando se atribui um significado social a essas categorizações e se age negativamente sobre elas, passamos a falar de discriminação.

A discriminação inclui, ainda, questões de poder, onde indivíduos ou grupos socialmente mais poderosos prejudicam abertamente, ou de forma dissimulada, uma pessoa com menos poder social, como é o caso da violência policial. Este exemplo ilustra como a discriminação experienciada ao nível individual se transforma em discriminação percecionada ao nível social. Ambas podem ser prejudiciais para o ajustamento da criança.

As crianças e as experiências com a discriminação

Há evidências de que crianças a partir dos 3 anos de idade experienciam o preconceito racial, como ficou comprovado nos famosos estudos de bonecas, nos anos 1940 e 1950 e que, desde então, foram replicados por diversas vezes. Os resultados mostram que, quando era dada a opção, a maioria das crianças preferiam brincar com as bonecas brancas, independentemente da sua cor de pele. Eram, ainda, atribuídas características mais positivas às bonecas brancas: eram bonitas, simpáticas ou inteligentes. Sendo o oposto verdadeiro para bonecas negras, consideradas feias ou malcomportadas. Este  é um exemplo de uma réplica recente deste estudo em Itália e os resultados são chocantes.

E em Portugal, que resultados existem com crianças?

Um estudo [1] avaliou as perceções de estatuto social de crianças (entre os 6 e os 12 anos) ciganas, brancas e negras. Os resultados indicam que as crianças brancas posicionam o seu grupo como tendo o estatuto mais elevado, seguido dos negros e, depois, dos ciganos; as crianças negras posicionam o seu grupo ao mesmo nível do das crianças brancas e o grupo das crianças ciganas mais abaixo; e, finalmente, as crianças ciganas colocam os três grupos ao mesmo nível, contudo, num ponto da escala consistente com a atribuição de baixo estatuto aos três grupos. Verifica-se, assim, que aos 6 anos de idade, e sem alterações relevantes ao longo da infância, as crianças já são capazes de reconhecer uma hierarquia social favorável aos brancos e desfavorável aos negros e ciganos. Mostram, ainda, que os grupos minoritários (negros e ciganos) adotam estratégias distintas de acordo com o modo como são posicionados pelo grupo maioritário (brancos): os negros posicionam os ciganos abaixo e elevam o seu grupo; e os ciganos consideram que, tal como eles, os outros apresentam baixo estatuto.  

Efeitos no desenvolvimento e no coping das crianças

As crianças que vivenciam discriminação tendem a apresentar níveis mais baixos de autoestima e de sentimentos de valor-próprio, tendo menos comportamentos pró-sociais. Adicionalmente, a discriminação percepcionada tem um impacto negativo nos resultados e sucesso escolar das crianças. Por exemplo, um estudo conduzido em Portugal, com crianças estrangeiras e crianças portuguesas autóctones e com origem imigrante (4.º, 5.º ou 6.º anos de escolaridade), mostrou, para as crianças estrangeiras, que níveis superiores de discriminação percebida eram acompanhados por piores resultados escolares [2]. A investigação indica, ainda, que os rapazes se encontram em maior risco, comparativamente com as raparigas, de apresentar resultados desenvolvimentais negativos.

Face à discriminação, as crianças desenvolvem diferentes estratégias de coping. Algumas procuram suporte social, enquanto outras podem optar por utilizar estratégias de resolução de problemas. Ambas as estratégias aparentam ter mais sucesso comparativamente com o evitamento ou com estratégias centradas na emoção [3].

Ensinamentos importantes para a Educação na Primeira Infância

1 – A discriminação percecionada pode ser experienciada ao nível individual e/ou social, ou até a um nível global. Esta não deve ser ignorada, devendo os educadores (e todos em geral) estar conscientes da sua existência, considerando as suas potenciais consequências para as crianças e suas famílias.

2 – É importante que os educadores reflitam sobre o seu próprio preconceito (implícito), de modo a tentar revertê-lo.

3 – É importante que os educadores tenham em consideração que a categorização das pessoas, de acordo com as suas características físicas, é produto do funcionamento do nosso cérebro, mas estejam atentos quando atribuírem significado social ou valências com base nestas características.

Adaptado da publicação original de Pauline Slot no EarlyYearsBlog.

Tradução e adaptação de Lígia Monteiro e Ricardo Rodrigues.

Referências

[1] Feddes, A. R., Monteiro, M. B., & Justo, M. G. (2014). Subjective social status and intergroup attitudes among ethnic majority and minority children in Portugal. British Journal of Developmental Psychology, 32(2), 125-140.

[2] Guerra, R., Rodrigues, R. B., Aguiar, C., Carmona, M., Alexandre, J., & Lopes, R. C. (2019). School achievement and well-being of immigrant children: The role of acculturation orientations and perceived discrimination. Journal of School Psychology, 75, 104-118.

[3] Marks, A. K., Ejesi, K., McCullough, M., & Garcia Coll, C. (2015). The development and implications of racism and discrimination. Handbook of Child Psychology and Developmental Science, 3, 323-349.


Discriminação: Ensinamentos para a Educação na Primeira Infância

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