“A tomada de decisão de terminar com as celebrações festivas que ainda celebrávamos – natal, páscoa, dia da mãe e pai – decorreu de uma reflexão e compromisso em equipa de nos tornarmos uma instituição mais inclusiva” (Sara, coordenadora pedagógica).

A celebração do natal e a sua preparação estão na ordem do dia em muitas creches e jardins de infância. Trata-se de um período em que, frequentemente, todo o trabalho e todas as intenções se centram na celebração desta efeméride. Como acontece na época do natal, também acontece noutras datas tradicionalmente festivas, o trabalho desenvolvido por adultos e crianças centra-se, todos os anos, nos mesmos temas. No entanto, podemos pensar se esta prática é, em si mesma, inclusiva [1]. Ou, se por outro lado, ao comemorarmos apenas o natal e as tradições que nos são culturalmente próximas não estamos a excluir algumas crianças e famílias [2]. 

Esta mensagem procura dar conta de relatos de profissionais que trabalham num jardim-de-infância que não celebra dias festivos (natal, páscoa, carnaval, entre outros) enquanto instituição, isto é, não altera a sua rotina para comemorar estas datas em específico. Não se trata de acabar com as celebrações, mas de dar espaço para que se compatibilizem as várias festividades e tradições e para que estas surjam a partir de crianças e famílias. Enquanto instituição, ao assumir esta prática abre espaço para que cada criança ou família expressem e celebrem os dias que são significativos para si, não expressando, institucionalmente, a celebração de uma tradição dominante.

Escolher e trilhar este caminho tem, naturalmente, desafios. Vejamos o que nos têm a dizer as/os profissionais.

O que dizem as/os profissionais sobre terminar as celebrações festivas enquanto parte integrante da organização da rotina?


O ponto de partida foi o desejo de “constituir uma verdadeira comunidade escolar, onde todos sentem pertença.” O desafio passa por pensar, problematizar e alterar “práticas estereotipadas, que são significativas apenas para alguns e são fator de exclusão de outros”.[3] 

O ponto de partida para esta reflexão foi, precisamente, “o natal, os seus símbolos e significados…” [4] e a mudança de práticas implicou reflexão conjunta “(com a equipa, as famílias e as crianças) sobre [como] ser uma escola de todos e para todos de forma efetiva”. [5]

Na origem desta reflexão conjunta verificava-se que:

  1. A maioria das crianças assumia tarefas de pouco valor formativo durante o período de preparação destas celebrações;
  2. Existia uma alteração significativa na rotina, sem que isso refletisse, necessariamente, o interesse das crianças;
  3. Muitas crianças e famílias estavam excluídas à partida de participarem no processo;
  4. Nem sempre era claro que as crianças compreendessem o significado cultural das datas que se estavam a celebrar.

Estas preocupações estão em linha com as investigações que têm sido realizadas sobre o tema [7, 8, 9]. Uma das ideias mais vincadas é que a mudança de prática permitiu que se trabalhe “de ‘portas abertas’, [onde] todos são bem-vindos” [5] “para uma construção conjunta [com] mais momentos de verdadeira participação”.[3]

Outra dimensão mencionada é que “não celebrar obsessivamente todas as festividades” contribui para mais [4, 6, 10]:

  1. Tranquilidade no dia-da-dia da escola [4, 6];
  2. Disponibilidade para acolher as propostas das crianças [4, 5]; e,
  3. Respeito pelas diferentes culturas da comunidade a que pertencem [3, 4, 5, 6].

Para os profissionais deste Jardim de infância, o que esta prática ilustra é que se abrirmos as instituições a todos e a todas, cada um pode manifestar e celebrar a sua cultura e as suas crenças. Assim, poder-nos-emos aproximar de comunidades educativas mais inclusivas e mais próximas de vivências culturalmente significativas e situadas para crianças e famílias [8, 10]. Desta forma, aumentar-se-ão as possibilidades de todos e de todas descobrirem novos significados sobre si e sobre os outros [9].

Um testemunho para finalizar…

 “Os dias festivos não são mais do que a cultura da comunidade e, naturalmente, entram pelas salas e nós não fingimos que eles não existem. Partir do que as crianças nos trazem, envolver os grupos em diferentes reflexões e propostas, valorizar a cultura e partilhar com a comunidade é o que fazemos. Assim podemos atribuir e/ou construir com as crianças novos significados e sentidos para as mais diversas datas do calendário, vivendo-as de forma integrada e significativa”.[4]

Para refletirmos

  • Como são vividos os dias festivos na sua instituição? 
  • O que pensa da possibilidade de os dias a celebrar não serem determinados institucionalmente, mas emergirem do que for relevante para os diferentes membros da comunidade educativa?

Referências

[1] Lappalainen, S. (2006). Liberal multiculturalism and national pedagogy in a Finnish preschool context: inclusion or nation‐making? Pedagogy, Culture & Society14(1), 99–112. https://doi.org/10.1080/14681360500487777

[2] Poulter, S., Riitaoja, A.-L., & Kuusisto, A. (2015). Thinking multicultural education ‘otherwise’ – from a secularist construction towards a plurality of epistemologies and worldviews. Globalisation, Societies and Education14(1), 68–86. https://doi.org/10.1080/14767724.2014.989964

[3]. Vaz, S. (2019, novembro). Testemunho recolhido por escrito sobre “Como é trabalho numa escola sem dias festivos?”. Lisboa.

[4] Bispo, V. (2019, novembro). Testemunho recolhido por escrito sobre “Como é trabalho numa escola sem dias festivos?”. Lisboa.

[5] Damásio, S. (2019, novembro) Testemunho recolhido por escrito sobre “Como é trabalho numa escola sem dias festivos?”. Lisboa

[6] Kene, V. (2019, novembro) Testemunho recolhido por escrito sobre “Como é trabalho numa escola sem dias festivos?”. Lisboa

[7] Åkerblom, A., & Harju, A. (2019). The becoming of a Swedish preschool child? Migrant children and everyday nationalism. Children’s Geographies, 1–12. https://doi.org/10.1080/14733285.2019.1566517 

[8] Kuusisto, A., & Gearon, L. (2019). Why Teach about Religions? Perspectives from Finnish Professionals. Religions10(6), 347. https://doi.org/10.3390/rel10060347

[9] Puskás, T., & Andersson, A. (2017). “Why Do We Celebrate …?” Filling Traditions with Meaning in an Ethnically Diverse Swedish Preschool. International Journal of Early Childhood49(1), 21–37. https://doi.org/10.1007/s13158-017-0182-8

 [10] Riitaoja, A.-L., & Dervin, F. (2014). Interreligious dialogue in schools: beyond asymmetry and categorisation? Language and Intercultural Communication14(1), 76–90. https://doi.org/10.1080/14708477.2013.866125

E se não celebrássemos apenas o natal na creche e no jardim-de-infância? Por uma escola mais inclusiva, de todos/as e para todos/as

Tiago Almeida

Licenciado, Mestre e Doutorado em Psicologia Educacional. Atualmente é Professor Adjunto na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Lisboa. Tem como interesses o brincar de crianças pequenas com e sem incapacidade e o estudo da genealogia das representações de criança e infância. Adora ler romances russos nos intervalos de longas pedaladas de BTT.

2 comentários sobre “E se não celebrássemos apenas o natal na creche e no jardim-de-infância? Por uma escola mais inclusiva, de todos/as e para todos/as

  • 02/01/2020 at 11:12
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    Há tanto tempo que questione esta prática das creches e dos jardins de infância. Determinadas pelas instituições, pelas equipas pedagógicas ou, muitas vezes, por “obrigação coletiva” de repetição de rotinas anuais, a celebração dos dias festivos tornam-se em momentos “mecânicos”, de algum stress e pouco vividos interiormente.
    Um alerta para este meu questionamento foi, no meu primeiro ano de trabalho como educador de infância (1990-1991), um criança de 5 anos ter feito este desabafo: “Outra vez isso do Natal!”, perante uma proposta de trabalho sobre o Natal.

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    • 12/02/2020 at 11:13
      Permalink

      Olá Filipe. Muito obrigado pela sua partilha. De facto, ouvir o que as crianças nos têm a dizer pode ser um importante ponto de partir para reflectirmos sobre a prática em educação de infância.

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