As crenças e sentimentos que temos sobre nós próprios são fundamentais para o nosso bem-estar e desenvolvimentoTambém as crianças, desde cedo, constroem imagens de competência e de aceitação sobre sideterminantes para os sentimentos, comportamentos e expectativas que desenvolvemnas mais diversas situações. Nesta publicação abordamos o autoconceito e a sua promoção, em idade pré-escolar.

O que é o autoconceito? 

O autoconceito é visto como o conjunto de valores, imagens e perceções que temos em relação a nós próprios, no âmbito das diversas experiências e interações sociais que estabelecemos [1]. Embora muitas vezes associado à autoestima, o autoconceito refere-se a perceções de competência ou de adequação em domínios académicos e não académicos, enquanto a autoestima diz respeito a uma avaliação mais global, envolvendo valores e afetos [2]. 

Adquirido desde muito cedo, o autoconceito de uma criança começa por ser marcadamente positivo e otimista [3]. À medida que a criança começa a processar informação e a avaliar-se de forma mais objectiva, o seu autoconceito torna-se progressivamente mais realista, complexo e multidimensional [4].  

Alguns estudos têm demonstrado que, entre os 4 e os 7 anos, as crianças desenvolvem perceções de competência ou de adequação em quatro domínios específicos – competência cognitiva, competência física, aceitação dos pares e aceitação materna –, agrupados em duas dimensões mais abrangentes [5]: 

Competência percebida que diz respeito às perceções da criança sobre as suas competências cognitivas e físicas – quão competente se considera a criança, por exemplo, na realização de puzzles; se conhece muitas ou poucas cores, letras e números; quão competente se perceciona em atividades como correr, saltar ao pé coxinho, andar de baloiço sozinha, ou dar cambalhotas.  

Aceitação social que diz respeito às perceções da criança sobre a aceitação por parte dos pares e dos adultos significativos – quão aceite se sente a criança pelos pares; se considera que os pares estão mais ou menos disponíveis para brincar consigo, ou para emprestar brinquedos; como perceciona a disponibilidade e o afeto dos adultos significativos para brincar consigo, contar histórias, ou deixá-la conviver com os amigos.  

Como promover o desenvolvimento do autoconceito? 

Os estudos sugerem congruência entre as perceções que as crianças têm de si e as perceções de pais e educadores [6]. Os adultos significativos do contexto em que a criança está inserida são, de facto, fundamentais para o desenvolvimento de um autoconceito positivo e ajustado. Assim, tendo em conta as características, necessidades e interesses de cada criança, importa proporcionar às crianças:  

Feedback positivo, reforço e encorajamento. O uso de “feedback” claro e positivo por parte dos adultos contribui para a manutenção de um autoconceito positivo [7]. Transmitimos às crianças mensagens de valorização e reforço, quando está a construir um puzzle, a fazer uma corrida, ou a interagir com os pares? Somos bons modelos e usamos palavras que enalteçam as forças, valorizem os esforços, ou descrevam a evolução em determinada área? Mostramos às crianças que acreditamos nas suas capacidades e damos-lhe exemplos de sucesso? Encorajamos as crianças e promovemos atividades que consigam completar e nas quais se sintam bem-sucedidas? 

Relações positivas com os pares. A promoção de um ambiente apoiante contribui para prevenir ou reduzir sentimentos associados a um autoconceito menos positivo [7]. A perceção dos pares como fontes de suporte está, assim, associada a um autoconceito mais positivo, sendo esta relação particularmente forte em contextos mais desfavorecidos [8]. Promovemos atividades que fomentem a entreajuda? Recorremos aos pares como fonte de apoio ou, pelo contrário, como forma de promover a comparação na sala? Mostramos às crianças que os pares as podem apoiar, por exemplo, nas dificuldades e na gestão de frustrações? 

Aceitação e respeito pelos seus interesses. É importante que as crianças se sintam competentes nas atividades ou nos domínios que consideram importantes. As crianças podem, por exemplo, sentir-se pouco competentes em determinado domínio valorizado pelos pares, sem que isso implique que se sintam mal consigo próprias [7]. De que forma respeitamos e promovemos áreas que a criança valoriza, relativizando a importância atribuída pelos outros? De que forma comunicamos com as crianças sobre determinadas competências que tendem a ser mais valorizadas pelos pares, como a competência física? Como gerimos atividades em função dos interesses e capacidades de diferentes crianças? 

Ajudar as crianças a terem uma imagem positiva de si mesmas, com base num ambiente pautado por relações positivas, de suporte e encorajamento, contribui para o desenvolvimento de um autoconceito positivo nas crianças. Como perspetiva este tema? Que práticas são, para si, mais adequadas? Contamos com as suas partilhas. 

 

Referências 

[1] Peixoto, F. (2003). Autoestima, autoconceito e dinâmicas relacionais em contexto escolar (Tese de Doutoramento não publicada). Universidade do Minho, Braga, Portugal. Disponível em http://repositorio.ispa.pt/handle/10400.12/48.

[2] Harter, S. (1999). The construction of the self: A developmental perspective. New York: The Guilford Press.  

[3] Harter, S. (2006). The self. In W. Damon & R.M. Lerner (Editors-in-Chief) & N. Eisenberg (Vol. Ed.), Handbook of child psychology: Vol. 3 Social, emotional, and personality development (6th ed., pp. 505–570). New York, NY: Wiley. 

[4] Marsh, H. W., Craven, R., & Debus, R. (1991). Self-concepts of young children 5 to 8 years of age: Measurement and multidimensional structure. Journal of Educational Psychology, 83, 377-392. doi: 10.1037/0022-0663.83.3.377.

[5] Harter, S., & Pike, R. (1984). The pictorial scale of perceived competence and social acceptance for young children. Child Development55(6), 1969-1982. doi: 10.2307/1129772 

[6] Custódio, L., & Mata, L. (2012). Autoconceito no pré-escolar: comparação das autopercepções das crianças e as heteropercepções dos pais e educadores. In L. Mata, F. Peixoto, J. Morgado, J. C. Silva, & V. Monteiro (Eds.), Actas do 12º Colóquio de Psicologia e Educação, 521-535.   

[7] Manning, M. A., Bear, G. G., & Minke, K. M. (2006). Self-concept and self-esteem. In G. G. Bear & K. M. Minke (Eds.), Children’s needs III: Development, prevention, and intervention (pp. 341– 356). Washington, DC: National Association of School Psychologists. 

[8] Battistich, V., Solomon, D., Kim, D., Watson, M., & Schaps, E. (1995). Schools as communities, poverty levels of student populations, and students’ attitudes, motives, and performance: A multilevel analysis. American Educational Research Journal32(3), 627–658. doi: 10.2307/1163326.

“Eu consigo! Eu sei! Eu tenho muitos amigos para brincar!”: o autoconceito em idade pré-escolar

Nadine Correia

Psicóloga, trabalha desde 2007 em investigação. Interessada em direitos humanos e políticas públicas, fez mestrado em Política Social, e estagiou no Conselho da Europa e na Comissão Europeia. Integra, desde 2014, o Centro de Investigação Social do ISCTE-IUL, onde está a concluir doutoramento, centrado no direito de participação das crianças em contexto pré-escolar. Paralelamente, interessa-se por fotografia e ilustração infantil.

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