Mãe e filha juntas – desenhado por Alice aos 30 meses

Em qualquer idade receber e dar amor é fundamental. Intuitivamente, percebemos a importância de ter alguém em quem confiar, o valor de nos abrigarmos no amor dos outros, e de poder amar alguém de tal forma que esse amor é em si próprio estruturante.

Na infância, o amor dos pais (geralmente, as figuras de vinculação), para além de oferecer confiança e afeto, contribui de forma determinante para a construção da personalidade e para o desenvolvimento da criança.

O que são relações de vinculação?

A Humanidade pagou um custo muito alto para ser a espécie mais inteligente. Para nascer com um perímetro cefálico superior ao das outras espécies, o bebé humano tem de nascer o mais precocemente possível para sobreviver ao parto. Este imberbe bebé só sobrevive graças aos cuidados de alguém.

Ao longo da evolução, a seleção favoreceu a expansão do cérebro e a sofisticação das funções da amígdala, que nos permite estabelecer e priorizar as relações da vinculação O estabelecimento da vinculação tornou-se uma necessidade primária universal na espécie humana.

Nas palavras de Bowlby [1], a relação de vinculação é uma relação privilegiada, com um coespecífico que perdura no tempo e sem a qual a criança corre riscos graves de perturbação psicológica. De modo mais acessível, é uma relação afetiva marcante na formação da personalidade e, consequentemente, ligada a todas as outras áreas do desenvolvimento. Tem origem desde o nascimento, é nutrida pelo amor e proteção das figuras de vinculação.

Existem diferentes tipos de vinculação?

As relações de vinculação podem ser seguras, inseguras-evitantes e inseguras-resistentes/ambivalentes [2].

A maioria das crianças apresenta uma vinculação segura (tanto em amostras nacionais como internacionais), confiando na proteção e cuidado das suas figuras de vinculação. Em média, as crianças seguras apresentam, em comparação com as outras crianças, menos comportamentos negativos, mais comportamentos cooperativos (com o adulto e com os seus pares) e uma autorregulação positiva [3]. Estas crianças apresentam, igualmente, melhores indicadores globais de desenvolvimento e desempenho académico do que as crianças com vinculação insegura [4].

A vinculação insegura-evitante decorre de uma experiência demasiado exigente ou punitiva com as figuras de vinculação. As crianças com uma vinculação evitante desencadeiam todos os esforços para não exprimirem os seus sentimentos negativos. A raiva ou a tristeza são inibidas, em particular, na presença das figuras maternas. As suas manifestações comportamentais parecem adaptar-se às exigências da figura de vinculação na tentativa de prevenir o conflito.

O grupo das crianças com uma vinculação insegura-resistente/ambivalente revela preocupação em manter a proximidade com a figura materna e, por isso, as separações são vividas com grande ansiedade e perturbação. Porém, no seu regresso, reagem com assinalável resistência ou com demonstrações de rejeição ou passividade. Tendem a apresentar grande dificuldade em relacionar-se com figuras não familiares e em estabelecer relações de confiança. Pais mais ocupados, cansados e sobrecarregados de problemas podem ter mais dificuldade em lidar com as necessidades da criança. A diminuição da atenção positiva e focada na criança não é uma causa direta, mas oferece espaço ao desenvolvimento desta estratégia.

Qual é a melhor estratégia de vinculação?

Todas! As estratégias de vinculação são autoprotetivas, ou seja, são formas adaptativas de relacionamento com as figuras de vinculação. Estas estratégias permitem à criança relacionar-se diminuindo o risco de abandono, mau trato e negligência. Face a um prestador de cuidados punitivo ou crítico, a melhor forma de a criança se proteger é inibir emoções negativas (por exemplo, parar de chorar, de reclamar as suas necessidades), ser obediente e distante. Neste contexto, a estratégia segura de sinalizar as necessidades aos cuidadores pode constituir o risco de zangar o cuidador. Deste modo, é preciso agir nas causas (nas relações) e não nos comportamentos [5].

Estratégias para o trabalho pedagógico na vinculação

Os sentimentos – estou protegido (os adultos estão presentes e ajudam-me quando preciso); sou amado (eles preocupam-se comigo, rodeiam-me de afeto) e sou valioso (eles divertem-se comigo, eles adoram passar tempo comigo, eles acham-me adorável) – podem ser promovidos em todos os contextos de vida da criança [6]:

  • Promova relações de confiança com cada criança da sua sala – apoie a criança quando ela se encontra aflita, triste ou só;
  • Não faça comentários negativos ou rejeite a expressão afetiva da criança;
  • Promova relações afetivas positivas entre crianças. Nenhuma criança deve passar pela creche ou jardim-de-infância sem ter pares de referência;
  • Valorize cada criança, lembre-se que todas as crianças querem a sua aprovação;
  • Foque a atenção dos pais na criança do presente, no lugar da criança que eles possam ambicionam que venha a ser;
  • Mostre aos pais o melhor de cada criança, ajude os menos “envolvidos” a encantar-se pelos seus filhos e filhas.

 

Marina Fuertes, Escola Superior de Educação de Lisboa

 

Referências
1. Bowlby, J. (1969, 1982). Attachment and loss (Vol. I). London: Penguin Books.
2. Ainsworth, M. D., Blehar, M., Waters, E., & Wall, S. (1978). Patterns of attachment – A Psychological Study of the Strange Situation. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates
3. Barbosa, M., Beeghly, M., Moreira, J., Lopes dos Santos, P., Tronick, E. & Fuertes, M. (2018). Robust stability and physiological correlates of infants´ patterns of regulatory behavior in the still-face paradigm at 3 and 9 months. Developmental Psychology, 54(11), 2032-2042.
4. Thompson, R. A. (2008). Early attachment and later development: Familiar questions, new answers. Handbook of Attachment – Theory, Research, and Clinical Applications, 330-348. Eds. London: The Guilford Press.
5. Berlin, L. J., Ziv, Y., Amaya-Jackson, Greenberg, M. (2005). Enhancing Early Attachments – Theory, Research, Intervention and Policy (pp. 297-312). New York: Guilford.
6. Fuertes, M. (2016). Pais e filhos crescem juntos. US: Space Create.

Salvos pelo amor! Relações de vinculação e desenvolvimento

Marina Fuertes

Marina Fuertes é Professora Coordenadora da Escola Superior de Educação (Instituto Politécnico de Lisboa) e membro integrado do Centro de Psicologia da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP). É doutorada e mestre em Psicologia com pós-doutoramento em Harvard Medical School. Obteve vários financiamentos e prémios científicos tendo publicado diversos artigos – recentemente na Developmental Psychology.

4 comentários sobre “Salvos pelo amor! Relações de vinculação e desenvolvimento

  • 16/01/2019 at 23:05
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    Mais um excelente artigo. É preciso cada vez mais entender a vinculação. Sendo esta a base de todo o desenvolvimento da criança. Professora fez me recordar a minha tese

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  • 17/01/2019 at 10:04
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    Olá Dina:
    Obrigada pelo comentário, Concordo! Na tua tese estávamos à procura das bases do comportamento materno sensível das mães portuguesas e em cada parâmetro desse comportamento, que definíamos, encontrávamos uma estreita ligação ao desenvolvimento infantil: Love Sinpases!

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  • 17/01/2019 at 20:56
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    Excelente reflexão.
    Muitas vezes entro em creches ou salas de educação pré-escolar onde os educadores dão mais importância à atividade e fazer trabalhos bonitos do que à criação do vínculo com as crianças, ao estabelecer uma relação, ao preocuparem-se com o bem estar da criança. Obrigada 🙂

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