Quais são as características de uma sala que potencia a aprendizagem das crianças? Nesta mensagem, exploro cinco elementos de salas que respondem com sucesso às crianças com necessidades especiais de aprendizagem. Essas necessidades podem estar relacionadas com as suas capacidades intelectuais, com as suas capacidades físicas, com as suas experiências traumáticas… Independentemente de tudo, a ideia universal é que as salas destinadas a crianças pequenas devem ser envolventes.

 

EIEIO | Evidence-based International Early Intervention Office

 

Desde o início dos anos 1980, eu e os meus colegas, por todo o mundo, temos testado formas de gerir salas e organizamos a informação que reunimos em cinco elementos, graficamente indicados na imagem. Visito muitas salas e vejo que estes elementos estão frequentemente em falta. Por esta razão, esta mensagem destina-se a aumentar o conhecimento sobre estes elementos, de forma a promover a exploração futura por parte dos/as profissionais de educação de infância.

Avaliação de Necessidades

Embora os/as profissionais avaliem o desenvolvimento das crianças com frequência, nem sempre avaliam as suas necessidades – aquilo de que precisam para participar de forma significativa nas rotinas da sala (e da família). Um método eficaz para recolher esta informação é a Entrevista Baseada nas Rotinas [1], que se baseia na experiência dos/as educadores/as de infância e das famílias em relação ao envolvimento, à independência e às relações sociais da criança, em cada rotina ou atividade diária. Para crianças com incapacidades, utilizamos esta entrevista para formular objetivos orientados para a participação escolhidos pela família.

Serviços

Apesar de ser contraintuitivo, receber mais serviços especializados e interagir com mais profissionais não é melhor para as crianças! Para crianças com incapacidades ou com outras necessidades especiais, o apoio que recebem deve ser proporcionado pelos/as seus/suas prestadores/as de cuidados naturais, normalmente os/as profissionais de educação de infância e os membros da família. Para além disso, o apoio que os/as prestadores/as de cuidados naturais recebem deve ser proporcionado por um/a prestador/a de serviços principal, que os ajuda com o funcionamento global da criança [2]. Contrastem esta abordagem com situações em que o/a educador/a recebe diferentes terapeutas na sua sala, individualmente, e recebe conselhos diferentes e, por vezes, contraditórios. Pior ainda é ter os terapeutas a retirar a criança da sala. Dessa forma, o/a educador/a de infância não aprende nada. Os serviços especializados devem promover a capacidade dos/as profissionais de educação de infância para intervir com a criança todos os dias, todo o dia.

Ensino

As crianças não recebem ensino propriamente dito em quantidades suficientes [3]. Para muitas crianças, é suficiente envolverem-se nas atividades: através de tentativa e erro, imitação e outros métodos de aprendizagem naturais, as crianças adquirem competências e conhecimento. Contudo, as crianças – especialmente as que têm incapacidades – precisam de ensino propriamente dito e o ensino incidental é um método particularmente eficaz, baseado em evidências. Com o ensino incidental, os adultos (a) asseguram o envolvimento da criança, (b) seguem os interesses da criança, (c) promovem formas mais sofisticadas do comportamento atual da criança e (d) asseguram que o novo comportamento é reforçado. É necessário considerar quer a quantidade de ensino incidental (isto é, assegurar que os adultos o usam o suficiente) quer a sua qualidade, através do passo (c).

Envolvimento

Envolvimento é a quantidade de tempo que as crianças despendem a participar de forma significativa nas suas rotinas. Por todo o mundo, diferentes filosofias de educação de infância resultam em diferentes níveis, definições e tipos de envolvimento. Em muitos países escandinavos, por exemplo, as crianças envolvem-se através da exploração e do jogo livre. Em muitos países do este asiático e do centro da Europa, as crianças estão envolvidas prestando atenção às atividades conduzidas pelos adultos. O plano de “defesa à zona”* tem demonstrado ser uma estratégia de gestão da sala que funciona em diferentes culturas, organizando os adultos na sala de forma a promover o envolvimento das crianças. Consiste em (a) organizar a sala em zonas claramente definidas, (b) atribuir a cada adulto responsabilidades específicas durante cada rotina, (c) responsabilizar os adultos por qualquer criança que se desloque para a sua zona (como acontece em vários desportos) e (d) assegurar transições suaves entre atividades [4, 5].

Ambiente

O ambiente da sala pode ser analisado da mesma forma que analisamos ambientes de aprendizagem conduzidos pelos adultos versus conduzidos pelas crianças. Salas com muita estrutura imposta pelos adultos tendem a ser estéreis, quando comparadas com salas com muita aprendizagem baseada no brincar. Tenho sido muito inspirado pela abordagem de Reggio Emilia relativamente a ambientes com objetos interessantes (“provocações”), muitas oportunidades para a expressão criativa (ateliers), luz natural ou incandescente (não fluorescente), materiais naturais (uso mínimo de plástico), cores neutras (não a predominância de cores primárias brilhantes) e outras características [5]. O modelo de Reggio Emilia também valoriza uma abordagem de projeto, a ligação à comunidade, a participação significativa da família, bem como uma perspetiva das crianças com incapacidades enquanto crianças com direitos especiais.

Os cinco elementos para promover o envolvimento das crianças podem ser encontrados no Engagement Classroom Model [6]. Exemplos deste modelo podem ser vistos nos Estados Unidos da América no Siskin Children’s Institute em Chattanooga, Tennessee, na Polónia no Słozecna Kraina em Cieszyn, Silesia, e em Taiwan, no Central Taiwan University Tan-Shiao Preschool em Taichung

Então, se trabalha em ou com contextos de educação de infância, pergunte…

  • Sei o que as crianças precisam de aprender para participar de forma significativa?
  • Tenho acesso a um/a profissional que pode ajudar relativamente a todas as necessidades da criança?
  • Ensino as crianças no decurso de todas as minhas interações?
  • Organizo a sala de forma a promover o envolvimento?
  • A minha sala é interessante e divertida?

 

R. A. McWilliam

 

Referências

[1] McWilliam, R. A., Casey, A. M., & Sims, J. L. (2009). The Routines-Based Interview: A method for assessing needs and developing IFSPs. Infants & Young Children, 22, 224-233.
[2] Shelden, M. L., & Rush, D. D. (2010). A primary-coach approach to teaming and supports in early childhood intervention. In R. A. McWilliam (Ed.), Working with families of young children with special needs (pp. 175-202). New York, NY: Guilford Press.
[3] Casey, A. M., & McWilliam, R. A. (2008). Graphical feedback to increase teachers’ use of incidental teaching. Journal of Early Intervention, 19, 251-268.
[4] Casey, A. M., & McWilliam, R. A. (2011). The impact of checklist-based training on teachers’ use of the zone defense schedule. Journal of Applied Behavior Analysis, 44, 397-401.
[5] Warash, B., Curtis, R., Hursh, D., & Tucci, V. (2008). Skinner meets Piaget on the Reggio playground: Practical synthesis of applied behavior analysis and developmentally appropriate practice orientations. Journal of Research in Childhood Education, 22, 441-453.
[6] McWilliam, R. A., & Casey, A. M. (2008). Engagement of every child in the preschool classroom. Baltimore, MD: Paul H. Brookes Co.

Uma sala que escolheria para o/a seu/sua filho/a

Robin McWilliam

Professor na Universidade do Alabama e Diretor do Departamento de Educação Especial e Capacidades Múltiplas. Na universidade, fundou o Gabinete Internacional de Intervenção Precoce Baseada em Evidências (Evidence-based International Early Intervention Office, EIEIO). Desenvolveu o Modelo Baseado nas Rotinas para a intervenção precoce, que está a ser implementado em 10 países.

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