Memórias felizes

Já tive o privilégio de ser acolhida por educadores/as e crianças de dezenas de salas de creche e de jardim de infância. Em todas elas, aprendi algo novo sobre educação, desenvolvimento e aprendizagem! Contudo, há salas que ficam na memória, pelo que aprendi, pelo que vivi. Vou contar-vos sobre quatro salas e quatro educadoras de infância que, por motivos diferentes, nunca esqueci.

Uma sala de risos, onde os materiais de escrita povoavam todos os espaços

Como foi bom estar nesta sala de risos contagiantes! A educadora ria genuinamente com as histórias, expressões e perguntas das crianças e, por sua vez, as crianças riam com vontade com os comentários e as perguntas bem-humoradas da educadora. No acolhimento, as trocas entre as crianças estavam no centro do palco, com crianças a partilhar experiências e as restantes a fazer perguntas interessadas. “Viste hipopótamos?” perguntava uma criança a outra, que contava que tinha ido ao circo, dando início a uma sequência de perguntas sobre os animais mais inesperados! A educadora ria com as crianças e facilitava o diálogo entre elas. As perguntas eram tão valorizadas como as respostas. Como aquele grupo estava envolvido!

Nesta sala ainda, havia uma área totalmente dedicada à escrita, com uma diversidade impressionante de materiais (incluindo computador, cadernos de escrita livre para cada uma das crianças, escantilhões, etc.). Para além disso, havia ainda materiais de escrita colocados estrategicamente em todas as áreas da sala, permitindo descobrir e inventar múltiplas funções da escrita. Um exemplo a seguir!

Pequenos cientistas e um ouriço-cacheiro

Não é todos os dias que se visita uma sala que adotou um ouriço-cacheiro bebé! Mais ainda, não é todos os dias que um grupo de crianças e a sua educadora decidem medir e registar de uma forma sistemática o crescimento do seu ouriço-cacheiro, criando gráficos da evolução do seu peso ao longo do tempo. Se a memória não me falha, nesta sala, as paredes estavam recheadas de registos de várias experiências das crianças e pude folhear portefólios individuais detalhados dessas experiências!

Materiais e perguntas devolvidas

Uma das primeiras salas de jardim de infância que observei ficou gravada na minha memória por dois motivos. Em primeiro lugar, tratava-se de uma sala com uma quantidade e diversidade de materiais verdadeiramente impressionante. Era notório que, ao longo dos anos, tinha havido um investimento sistemático na aquisição de materiais de excelente qualidade.

O segundo motivo relaciona-se com o grau de intencionalidade da educadora nas suas interações com as crianças. Após algum tempo de observação, ficou claro que a educadora devolvia, de uma forma sistemática, as perguntas das crianças, encorajando-as a encontrar as suas próprias respostas. As crianças não ficavam sem respostas; estas emergiam através de um processo de descoberta. É uma estratégia que é frequentemente adotada por educadores e educadoras de infância; contudo, neste caso, a educadora fazia isto de uma forma tão consistente, que passados mais de 20 anos, ainda falo nisso.

Um gato e uma nespereira

Que experiência boa, estar numa sala de jardim de infância e sentirmo-nos em casa de um familiar! Esta sala tinha duas particularidades. A primeira é que a educadora e o seu grupo adotaram um gato, ou melhor, talvez o gato se tenha deixado adotar. A segunda é que o recreio tinha uma nespereira e, à data da nossa visita, as nêsperas estavam maduras. A educadora e as crianças convidaram-nos a comer nêsperas com elas, debaixo do alpendre do jardim de infância, criando uma memória feliz de uma sala com uma forte ligação ao mundo natural, onde o tempo parecia fluir mais devagar.

Para reflexão

As minhas visitas a todas estas salas foram breves. Ainda assim, causaram-me uma impressão forte, pelo ambiente vivido, pela intencionalidade nas práticas observadas. Que impacto terão tido nas crianças que as frequentaram dezenas ou centenas de dias? Muita da investigação em educação de infância tenta responder a esta pergunta e compreender como podemos assegurar experiências positivas e desafiantes, como as que partilhei, a todas as crianças.

Que tipo de memórias felizes perduram na vossa sala, na vossa creche ou no vosso jardim de infância?

Memórias felizes do jardim de infância

Cecília Aguiar

Professora no ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, na área de Psicologia. Os principais interesses de investigação incluem a qualidade em contexto de creche e jardim de infância, a intervenção precoce na infância e o desenvolvimento social das crianças. Apaixonada por literatura infantil.

Um comentário sobre “Memórias felizes do jardim de infância

  • 23/04/2021 at 11:42
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    Muito bom ouvir experiencias tão ricas e benéficas para o desenvolvimento das crianças.

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