Uma aprendizagem que podemos retirar do momento atual que vivemos é, de certa forma, a necessidade de aprendermos a habitar o desconhecido, o indeterminado [1]. Esta mensagem procura dar a conhecer a metodologia cartográfica como uma proposta de investigação-intervenção que (re)configura a agência infantil a partir de um ethos que não pressupõe respostas pré-determinadas ou ideias à priori sobre as vivências infantis [1].

É com este mote que nos propomos pensar as cartografias infantis como um tempo e um espaço em educação de infância onde crianças e adultos constroem uma ética relacional que permite habitar em conjunto o não saber e imaginar outros mundos possíveis enquanto se deambula por um mundo humano e não humano [2].

Cartografias infantis: uma investigação-intervenção.

Os momentos em que os adultos abandonam o lugar daquele que sabe para se debruçar, lado a lado com as crianças, num processo de descoberta realizado ao longo de um caminho de investigação conjunto revestem-se de grande potencialidade.  Contudo, são pouco comuns e uma das críticas que se pode fazer ao saber escolar é que muitas vezes este é apenas validado pela reprodução que as crianças conseguem fazer do que os educadores e professores lhes ensinam. 

A cartografia infantil trata de desenvolver práticas de acompanhamento de processos investigativos através dos quais as crianças interagem e intervêm no mundo. O objetivo é que as crianças participem ativamente no que está a ser investigado. O mesmo é dizer que abandonamos o referencial que investiga as crianças no mundo, ou até as suas representações sobre o mundo, para passarmos a considerar uma proposta que acompanha os “encontros” das crianças com o mundo [3].

Quando propomos a crianças pequenas que desenvolvam processos cartográficos é essencial que o adulto registe as vivências infantis em diários de campo. De facto, essas anotações estarão não só na base do conhecimento produzido, como também serão essenciais para a intervenção e para a ação política que advêm da investigação-intervenção infantil [4].

Partilha de uma pesquisa cartográfica

No projeto “Cartografias Infantis: a cidade pela criança, a fotografia pela infância”, desenvolvido no Brasil entre 2010 e 2013 foi proposto que um grupo de crianças apresentasse as cidades que habitavam a partir da multiplicidade de narrativas, olhares fotográficos, escritos e desenhos de crianças que as habitavam. Ao longo de três anos, crianças de diferentes idades e realidades foram convidadas a participar em oficinas onde os deslocamentos pela cidade se faziam presentes, registando os seus “encontros” com a cidade de forma visual e escrita [5].

O resultado das oficinas e as respetivas produções das crianças tornaram-se propostas políticas de alteração do espaço público, trazendo à equação o modo como as crianças vivenciavam as cidades e projetavam outros mundos possíveis. 

Este processo cartográfico permitiu acompanhar o processo através do qual as crianças interrogam o mundo enquanto circulam por ele. Permitiu também que esse questionamento infantil culminasse numa proposta política contextualizada na sua experiência. 

Para finalizar…

A cartografia infantil implica uma visão de criança como sujeito em devir e em permanente relação com os elementos humanos e não humanos da sua comunidade. Uma comunidade situada dentro de um mundo aglomerado onde as crianças são afetadas por múltiplos atores. Só através de educação rizomática, culturalmente situada e cooperada podemos libertar a infância do seu terrível destino de tornar-se, sempre e eternamente, o adulto por vir, para lhe darmos a oportunidade de contribuir para a criação de outros mundos possíveis.

Referências Bibliográficas.

[1] Almeida, T., & Ó, J. R. (2020, no prelo). A vida como acontecimento e a potência do indeterminado em tempos de pandemia para pensar a relação com a infância. Revista Socidad e Infancias, XX, X, p. xx-xx

[2] Latour, B. (2004/2019). Políticas da Natureza. São Paulo: Editora UNESP.

[3] Weldemariam, K., & Wals, A. (2020). From Autonomous Child to A Child Entangled Within an Agentic World – Implications for Early Childhood Education For Sustainability. In S. Elliot, E. Arlemalm-Hagsér, & J. Davis (2020). Researching Early Childhood Education for Sustainability – Challenging Assumptions and Orthodoxies. Routhledge. [VitalSource Bookshelf version]. Retrieved from vbk://9780429822674

[4] Passos, E., & Kastrup, V. (2013). Sobre a validação da pesquisa cartográfica: acesso à experiência, consistência e produção de efeitos. Fractal: Revista de Psicologia25(2), 391–413. doi: 10.1590/s1984-02922013000200011

[5] Costa, L. B., & Vieira, L. (2013). Cartografias Infantis: a cidade pela criança, a fotografia pela infância. Revista Arte Sesc: cultura por toda a parte, 13, 54 – 57.

Cartografias infantis: uma outra forma de investigarmos com as crianças

Tiago Almeida

Licenciado, Mestre e Doutorado em Psicologia Educacional. Atualmente é Professor Adjunto na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Lisboa. Tem como interesses o brincar de crianças pequenas com e sem incapacidade e o estudo da genealogia das representações de criança e infância. Adora ler romances russos nos intervalos de longas pedaladas de BTT.

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