Faz por estes dias 16 anos que nasceu o João, o meu filho mais novo. Então, com 25 semanas de gestação, pesava pouco mais de 750 gramas. Como se aproxima mais um momento significativo nas nossas vidas – a transição para o Ensino Secundário – decidi revisitar uma das primeiras transições que enfrentámos – a sua entrada para a Creche, por volta dos 18 meses de idade. Aproveitarei para refletir sobre algumas práticas que poderão ajudar a ultrapassar esse momento de forma mais suave.

O João, como é habitual nas situações de grande-prematuridade, passou os primeiros meses de vida em contexto hospitalar, com problemas de saúde e de desenvolvimento. Quando teve alta, era evidente que não estava a atingir os marcos desenvolvimentais nos momentos esperados. Ao ano não andou e aos dois não falou…

A tentação de o manter em casa era grande, mas isso não era possível, nem tão pouco recomendável, e foi necessário encontrar uma solução que nos permitisse retomar a vida profissional. Inicialmente, com uma resposta familiar, posteriormente com uma combinação de resposta familiar e ama, passaram-se 18 meses da sua vida. Chegou, então, a altura de entrar para uma Creche, para brincar com outras crianças e adultos e para explorar o mundo à sua volta.

A Carla Peixoto já refletiu neste blogue acerca do momento da transição de bebés para a creche, mas os casos de crianças com perturbações no seu desenvolvimento são descritos como particularmente difíceis para as crianças, para os pais e até para os/as educadores/as.

Assim, a transição deve ser entendida como um processo [1]: (a) que se prolonga por vários meses, não sendo um evento localizado no tempo; (b) que envolve um planeamento prévio à entrada da criança para a Creche/JI e um acompanhamento posterior para avaliar a eficácia dos procedimentos utilizados; (c) que envolve os contributos de todos os parceiros nos contextos de onde a criança vem e para onde a criança vai, da família e de todos os elementos de apoio.

Atualmente, a minha família teria o apoio de uma Equipa Local de Intervenção Precoce (ELI), que assumiria a gestão do processo, fazendo a ponte com os serviços e as estruturas necessárias [2]. No entanto, independentemente do envolvimento de uma ELI, há estratégias que podem ser mobilizadas para facilitar a transição de crianças com perturbações no seu desenvolvimento. As propostas que apresento complementam as que a Carla Peixoto recomendou e baseiam-se em resultados de estudos desenvolvidos nos EUA por Beth Rous e a sua equipa [3, 4].

 

Participação ativa da família no processo de transição

Numa investigação que estudou as perceções de famílias de crianças com perturbações do desenvolvimento sobre a transição para a creche [5], verificou-se que as que estavam satisfeitas com o processo sublinhavam quatro fatores: sentiam-se preparadas para a mudança, tinham reunido com a equipa da Creche/JI, sentiam-se verdadeiramente envolvidas nas planificações e tinham tido a oportunidade de tomar decisões e de fazer escolhas.

Nesse sentido, é importante realizarem-se reuniões com a participação da família e da criança. Mas, para que sejam produtivas, é essencial que:

  • as necessidades das famílias, relacionadas com a transição, sejam avaliadas e sejam alvo de atenção;
  • as famílias tenham a informação necessária para poderem participar ativamente nessas reuniões e na planificação;
  • os/as profissionais envolvidos/as acompanhem a criança após a transição para apoiarem o seu ajustamento e para avaliarem o processo.

Promoção do conhecimento mútuo

Para garantir o melhor ajustamento, é importante que todos os intervenientes no processo conheçam os contextos relevantes para a criança, o que implica a realização de visitas. A mais habitual é a visita da família e da criança à sala onde esta irá ser colocada. No entanto, no caso em que a criança já não está apenas com a família, poderá também ser útil a visita da pessoa com quem a criança ainda está à sala de creche/JI e a visita do/a futuro/a educador/a ao contexto onde a criança tem estado. Finalmente, a visita do/a educador/a (sozinho/a ou com outros/as profissionais) à casa da família poderá também ser importante.

Estas visitas, além de possibilitarem a partilha de informações sobre a criança e o seu funcionamento, promovem a aproximação entre todos, deixando a família mais à vontade com os/as profissionais. Por outro lado, permitem a identificação de competências importantes para a adaptação ao novo contexto.

Assim, é importante que:

  • seja dada à família a possibilidade de participar ativamente na recolha de informação sobre o desenvolvimento da sua criança;
  • sejam desenvolvidos planos de transição que incluam atividades individuais para cada criança e família;
  • as crianças tenham oportunidade para desenvolverem as competências de que necessitam para serem bem-sucedidas no contexto seguinte.

No nosso caso, em 2005, a tão temida transição acabou por decorrer de forma muito suave. A equipa pedagógica da Creche tomou a iniciativa de implementar muitas destas estratégias, fazendo-nos sentir segurança e apoio em todo o processo. Além disso, serviu como um modelo para as transições posteriores!

O terceiro período letivo é uma boa altura para pensar e planear a transição que irá decorrer, para muitas crianças, no final do verão. O que faz ou poderá fazer na sua Creche/Jardim de Infância para suavizar a transição de crianças com perturbações no seu desenvolvimento? Partilhe connosco nos comentários!

[1] Rosenkoetter, S., Hains, A.H, & Dogaru, C. (2007). Successful transitions for young children with disabilities and their families: roles of social workers. Children & Schools 29(1), 25-34. DOI: 10.1093/cs/29.1.25

[2] Boavida, T., Aguiar, C., & McWilliam, R.A. (2018). A Intervenção Precoce na infância e os contextos de educação de infância. In M. Fuertes, C. Nunes, D. Lino & T. Almeida (ed.), Teoria, Práticas e Investigação em Intervenção Precoce (5-26). Lisboa: CIED

[3] Rous, B. (2008). Recommended transition practices for young children and families. Results from a validation survey. (Technical Report #3). Lexington: University of Kentucky, Human Development Institute, National Early childhood Transition Center. Available at http://www.ihdi.uky.edu.nectc/Libraries/NECTC_Papers_and_Reports/Technical_Report_3.sflb.ashx

[4] Rous, B., Myers, C. T., & Stricklin, S.B. (2007). Strategies for supporting transitions of young children with special needs and their families. Journal of Early Intervention, 30(1), 1-18. DOI: 10.1177/105381510703000102

[5] Lovett, D. L., & Haring, K. A. (2003). Family perceptions of transitions in early intervention. Education and Training in Developmental Disabilities, 38(4), 370-377.

Uma viagem turbulenta??!! A transição de bebés com perturbações do desenvolvimento para a creche

Miguel Santos

É professor na ESE/IPP, na área de Educação Especial e Inclusão. Tem doutoramento em Psicologia da Educação pela Universidade do Minho. Tem lecionado disciplinas sobre desenvolvimento humano típico e atípico e educação especial e inclusão. Os seus interesses profissionais centram-se na promoção da participação na vida em sociedade de todas as pessoas, independentemente das suas características, ao longo do seu ciclo de vida.

Um comentário sobre “Uma viagem turbulenta??!! A transição de bebés com perturbações do desenvolvimento para a creche

  • 29/01/2020 at 12:07
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    As transições sejam horizontais ou verticais fomentam a colaboração entre todos os intervenientes educativos. Os olhares, os saberes das famílias e dos profissionais de educação de infância complementam-se e, só assim, se promove o desenvolvimento holístico da criança. Ninguém educa sozinho.
    Como educadora de infância, com quase quatro décadas de profissão, nunca me senti sozinha na viagem educativa porque construí parcerias com as famílias, colegas da educação pré-escolar, do 1.º CEB e da comunidade.

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