Na véspera do primeiro dia de creche, a mãe do Miguel mal dormiu, angustiada. Nos poucos meses de vida do bebé – que pareciam ter voado – nunca tinha estado tanto tempo afastada dele. E o sono da tarde? Era tão difícil adormecê-lo, mesmo com a casa em completo silêncio! Como iriam fazer na creche?

São muitos/as os/as profissionais que recebem famílias que se confrontam com situações semelhantes e se questionam sobre o que podem fazer para as apoiar, reduzindo ansiedades e contribuindo para que a adaptação à creche seja bem-sucedida.

Para muitas famílias, deixar a criança na creche é uma experiência stressante, principalmente para aquelas que ainda estão a adaptar-se à chegada do/a primeiro/a filho/a, como é o caso da família do Miguel [1], e para aquelas com crianças com incapacidades. Também para as crianças, a entrada na creche é desafiante porque implica a separação da família e a adaptação a um novo contexto, constituído por espaços e rotinas diferentes e por adultos até aí desconhecidos [2,3].

Por isso, a adaptação à creche é facilitada quando os/as profissionais desenvolvem um conjunto de práticas de transição antes da entrada e durante as primeiras semanas de frequência da creche. Apresento, em seguida, três estratégias-chave recomendadas na literatura [3,4,5,6,7].

1. Planificar de forma personalizada a entrada na creche

Sabemos que todas as crianças e famílias são únicas e que a continuidade entre contextos é fundamental para facilitar a adaptação da criança à creche. Assim, conhecer a família e a criança antes do dia da entrada para a creche permitirá planificar de forma personalizada a transição. O que pode fazer neste primeiro encontro?

  • Informar a família, oralmente e por escrito, sobre a filosofia e o funcionamento da instituição, incluindo os procedimentos para o acolhimento diário da criança (ex., onde a família deve entregar a criança e colocar os objetos pessoais, a necessidade de informar sobre eventuais problemas ocorridos na véspera);
  • Recolher informação relevante sobre o funcionamento da criança na família (ex., hábitos alimentares, de sono e de higiene; brincadeiras ou brinquedos preferidas da criança; necessidades e expectativas face à creche);
  • Calendarizar a entrada da criança na creche, recomendando o aumento gradual da permanência na creche;
  • Apresentar, à família e à criança, os/as profissionais (educador/a de infância e/ou ajudante(s) de ação educativa) que irão lidar de forma mais direta e frequente com a criança;
  • Convidar a família a conhecer a sala que a criança vai frequentar e a passar algum tempo lá a explorar o espaço e os materiais.

2. Manter na sala rotinas de cuidados coerentes com as desenvolvidas na família

Após esse encontro com a família saberá melhor como incluir na sala algumas das rotinas desenvolvidas na família, ajudando a criança a sentir-se segura e a aprender a regular o seu próprio comportamento. Por exemplo, o/a profissional pode privilegiar, nas suas interações com um bebé, a forma como ele prefere ser pegado ao colo, alimentado e até adormecido.

Esta prática pode ser mais facilitada se for pré-definido, para cada criança, um/a profissional com mais responsabilidade nas interações e na prestação de cuidados. Além de simplificar a organização das tarefas entre os/as profissionais da sala, esta prática favorece uma maior estabilidade, consistência e responsividade das interações diárias com as crianças, permitindo a construção de relações significativas com os adultos, de extrema importância nesta fase de desenvolvimento [8,9,10].

3. Comunicar regularmente com a família

Um diálogo aberto e contínuo entre a família e os/as profissionais da creche, assente numa relação genuína e de proximidade, é particularmente relevante nesta fase [1]. De facto, os primeiros dias/semanas de frequência da creche exigem uma partilha de informação diária entre os/as profissionais e a família acerca das experiências e do comportamento da criança. Alguns dos tópicos específicos que podem ser abordados são a adaptação ao espaço, as brincadeiras, as interações com os/as profissionais e com os pares, os comportamentos à chegada e à saída da creche, a alimentação, o sono, etc.

Além dos momentos típicos de contacto diário (i.e., de manhã e ao final do dia), algumas famílias sentem necessidade de telefonar ou de visitar a sala para saber como está a criança. Nestas situações, é importante que os/as profissionais possam responder às preocupações das famílias, combinando qual(ais) o(s) momento(s) em que habitualmente têm mais disponibilidade e explicando que mesmo nesse(s), a prestação de cuidados às crianças pode dificultar a comunicação.

Assumindo que nem todas as famílias experienciam o processo de transição da mesma forma, importa prestar atenção aos seus comportamentos e perguntar “Como está(ão)?”. Lembre-se que pode receber diferentes respostas, desde “está tudo bem” até começarem a chorar… Mostre às famílias que se preocupa, as valoriza e as respeita. O que pode fazer nas situações em que a família demonstra dificuldades em lidar com este processo? Muitas vezes é suficiente ouvir e ser empático/a. Outras vezes, pode ser preciso ajudar a família a encontrar apoio especializado.

Se cada uma destas práticas é relevante, a sua combinação fará a diferença na adaptação das crianças à creche e será um excelente desafio para começar o seu próximo ano letivo.

Partilhe, na secção de comentários, as suas experiências neste âmbito e as estratégias que costuma utilizar para facilitar a transição das crianças e respetivas famílias do contexto familiar para a creche.

 

Carla Peixoto, Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto

 

Referências
[1] Merril, S. (2010). Child Care: It’s a transition for parents too! Young Children, 65 (5), 60–61.
[2] Daniel, J., & Shapiro, J. (1996). Infant transitions: Home to center-based child care. Child & Youth Care Forum, 25 (2), 111-123.
[3] Datler, W., Ereky-Stevens, K., Hover-Reisner, N., & Malmberg, L-E. (2012). Toddler’s transition to out-of-home day care: Settling into a new care environment. Infant Behavior and Development, 35(3), 439–451.
[4] Balaban, N. (2011). Transition to group care for infants, toddlers and families. In D. M. Laverick, & M. R. Jalongo (Eds.), Transitions to early care and education, educating the young child (pp. 7-20). New York: Springer Science-Business Media.
[5] O’Connor, A. (2013). Understanding transitions in the early years: Supporting change through attachment and resilience. New York: Routledge.
[6] Peixoto, C., Coelho, V., Pinto, A. I., Cadima, J., Barros, S., & Pessanha, M. (2014). Transição de bebés do contexto familiar para a creche: práticas e ideias dos profissionais. Sensos-e: Revista Multimédia de Investigação em Educação, I(2). http://sensose.ese.ipp.pt/?p=6599
[7] Segurança Social (Ed.) (2010). Manual de Processos-Chave para a Creche (2ª edição). Disponível em http://www4.segsocial.pt/documents/10152/13337/gqrs_creche_processos-chave
[8] Bernhardt, J. L. (2000). A primary caregiving system for infants and toddlers: Best for everyone involved. Young Children, 55(2), 74–80.
[9] National Association for the Education of Young Children (2009). Developmentally appropriate practice in early childhood programs serving children from birth through age 8. Position statement. Washington: NAEYC. Disponível em http://www.naeyc.org/positionstatements
[10] Zero to Three (2009). Developmentally appropriate practice in the infant and toddler years ages 0-3. Examples to consider. In C. Copple, & S. Bredekamp (Eds.), Developmentally appropriate practice in Early Childhood Programs. Serving children from birth through age 8 (3rd. Ed.). Washington, D. C.: NAEYC.

3 estratégias-chave para facilitar a transição para a creche
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Carla Peixoto

Licenciada e doutorada em Psicologia pela Universidade do Porto, com especialidade em psicologia da educação pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Docente na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto e no Instituto Universitário da Maia. Tem como principais interesses de intervenção e de investigação as questões relacionadas com a literacia emergente, a aprendizagem socioemocional e a qualidade dos principais contextos de desenvolvimento dos indivíduos.

6 comentários sobre “3 estratégias-chave para facilitar a transição para a creche

    • 16/10/2018 at 10:42
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      Muito obrigada. Contamos com a tua visita regular 😉

      Responder
    • 16/10/2018 at 10:43
      Permalink

      Muito obrigada. Temos novidades todas as semanas. Contamos com a sua visita!

      Responder
  • 09/10/2018 at 18:38
    Permalink

    Gostei muito do artigo. Fiquei também a refletir sobre o período de adaptação dos próprios profissionais à diversidade do grupo e das famílias. Diversidade essa que devemos acolher, respeitar e potenciar. Vou continuar a seguir o blogue.

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    • 16/10/2018 at 10:49
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      Muito obrigada pelo feedback. Concordo consigo em pleno. É igualmente importante considerar as necessidades dos/as profissionais no âmbito da experiência da transição do contexto familiar para a creche. Fica a nota do seu desafio para um próximo post 😉

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