Ainda gosta de andar de baloiço?

Brincar é uma atividade livremente escolhida, intrinsecamente motivada e individualmente dirigida pela criança. O único objetivo da brincadeira é brincar, divertir-se, envolver-se com objetos, com pessoas, com ações, com ideias e ocorre num “espaço” distinto da realidade [1]. Através da brincadeira, as crianças exploram, criam e recriam um mundo que podem controlar, desenvolvem e praticam novos comportamentos e constroem conhecimentos [2]. Todos os tipos de brincadeira e jogo, desde o faz de conta, às lutas e “guerras”, têm um papel crucial no desenvolvimento da criança.
A brincadeira é, assim, uma atividade essencial na infância, pois contribui para o desenvolvimento cognitivo, social, emocional e motor das crianças dos 0 aos 6 anos.

Os resultados de vários estudos, conduzidos por investigadores de diversas áreas, indicam que:

(i) Nos contextos de educação de infância, parece existir uma relação entre a diminuição do tempo dedicado a brincar e o aumento de comportamentos agressivos extremos em crianças pequenas [3];

(ii) as crianças que se envolvem com frequência em atividades de brincadeira desenvolvem competências matemáticas essenciais, tais como contar, comparar, medir, classificar, seriar, construir padrões, fazer estimativas, adicionar, subtrair, etc., fundamentais para a construção dos conhecimentos matemáticos formais [4];

(iii) as crianças de 5 anos que frequentam contextos de educação de infância que privilegiam atividades académicas e o ensino formal da leitura em detrimento de atividades de brincadeira, não evidenciam ganhos no desenvolvimento das competências de literacia a longo prazo [5];

(iv) as crianças de 3 a 6 anos que frequentam contextos de educação de infância que privilegiam a brincadeira e a escolha, têm mais sucesso académico e pessoal a curto e longo prazo [6].

Apesar dos benefícios anteriormente descritos, existem também estudos que apontam que a brincadeira e as atividades lúdicas estão a desaparecer em muitas práticas e currículos de educação de infância da atualidade [7]. É consensual entre a comunidade educacional internacional que as crianças pequenas passam mais tempo a realizar atividades académicas, orientadas pelos educadores, do que a realizar atividades da sua escolha, envolvendo-se em brincadeiras com os pares e os adultos [8].

Os espaços de brincadeira e o papel do adulto

Reconhecendo o papel da brincadeira para a aprendizagem e o desenvolvimento das crianças dos 0 aos 6 anos, é de vital importância refletir sobre o papel dos educadores na promoção de contextos lúdicos que proporcionem às crianças muitas e diversas oportunidades para brincar.

Os educadores podem criar um ambiente descontraído, confortável, organizado e “provocador” no qual as crianças se sintam seguras para explorar e experimentar novas brincadeiras e sejam desafiadas a usar a imaginação e a fantasia, encontrando-se os espaços organizados por áreas, com materiais diversificados, adequados às características desenvolvimentais e culturais das crianças e refletindo os interesses individuais e do grupo.

O papel do educador nas brincadeiras é o de observador e de mediador. A observação cuidadosa de cada criança e do grupo permite aos educadores adaptar as situações de brincadeira a cada criança, seguindo o seu desenvolvimento e ritmo pessoais. Permite, ainda reconhecer qual é o seu papel em cada brincadeira, podendo assumir um papel mais ou menos ativo, acompanhando sempre a escolha e a liderança da criança.

Questões para reflexão

1. Quais são as principais memórias das suas brincadeiras em criança? Quais as suas brincadeiras favoritas?
2. Qual é o tempo que dedica na sua rotina diária para as crianças brincarem?
3. De que forma o espaço e os materiais fomentam a brincadeira da criança?
4. Qual é o seu papel nas brincadeiras das crianças?

 

Referências

[1] Lino, D., & Parente, C. (2018). Play and learning in early childhood education: The contribution of High Scope, Reggio Emilia, and Montessori Pedagogical approaches. In C. Huertas, & E. Gómez (eds.), Early childhood education from an intercultural and bilingual perspective (pp. 147-163). Pennsylvania: IGI GLOBAL.
[2] Pellis, S., & Pellis, V. (2009). The playful brain. Venturing to the limits of Neuroscience. Oneworld Press: Oxford, UK.
[3] Gilliam, J. E. (2015). The Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder Test: A method for identifying ADHD (2nd Edition). Austin: TX: PRO – ED.
[4] Fisher, K., Hirsh-Pasek, K., Golinkoff, R. M., Singer, D. G., & Berk, L. (2011). Playing around in school: Implications for learning and educational policy. In A. D. Pellegrini (ed.), Oxford handbook of the development of play. Oxford University Press.
[5] Suggate, S. (2010). Children learning to read later catch up to children reading earlier. Early Childhood Research Quarterly, 28(1), 33-48.
[6] Schweinhart, L., Montie, J., Xiang, Z., Barnett, W., Belfield, C., & Nores, M. (2005). Lifetime effects: The High/Scope Perry Preschool study through age 40. Ypsilanti (MI): High Scope.
[7] Singer, D. G., Singer, J. L., D’Agostino, H., & DeLong, R. (2009). Children’s pastimes and play in sixteen nations: Is free-play declining? American Journal of Play, 1(3), 283-312.
[8] Miller, E., & Almon, J. (2009). Crisis in the kindergarten: Why children need to play in school. College Park, MD: Alliance for Childhood.

A importância do brincar para a aprendizagem e o desenvolvimento na infância

Dalila Lino

Doutorada em Estudos da Criança e licenciada em educação de infância. Atualmente é Professora Adjunta na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Lisboa e lecionou na Universidade do Minho e na Universidade do Maine em Farmington, USA. Os principais interesses de investigação incluem a pedagogia da infância, o brincar e o jogo na educação de infância, a formação de professores e educadores. Tem coordenado diversos programas internacionais na área do brincar e do jogo.

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