A educadora Daniela começou a trabalhar numa creche, numa substituição urgente de uma educadora. Ficou desconfortável com o que encontrou: pouco material, chão “frio”, paredes vazias. Como nunca tinha trabalhado em creche, reuniu material, recuperou os documentos da licenciatura e mestrado sobre creche, pediu sugestões, tentou conhecer cada criança, falou com auxiliares e pais. Ao fim de pouco mais de uma semana, a sala tinha fotografias das crianças e das suas famílias, imagens realistas de animais e mobiles com folhas do Outono. As crianças apontavam, sorriam, ensaiavam os nomes dos familiares, das cores, dos animais e as onomatopeias. Passado um mês, continuava a haver muito para fazer, mas o ambiente estava mais alegre, confortável e colorido, apoiava interações calorosas e estimulava conversas.

O material exposto na sala (imagens, fotografias) como indicador de qualidade educativa

A opção da Daniela por enriquecer a sala com imagens foi motivada pelo vazio e frieza que tinha sentido ao entrar na sala. Também pesaram nesta decisão fatores como a possibilidade de obter efeitos muito interessantes, num curto período de tempo, com poucos custos. Estar num ambiente acolhedor inspira boas práticas pedagógicas e, neste caso, contribuiu para que a própria educadora se sentisse bem no espaço e pudesse desenvolver um trabalho mais reflexivo e colaborativo com as crianças, as outras profissionais e as famílias.

Embora houvesse outras opções válidas, o investimento nas imagens é um dos indicadores de qualidade em vários referenciais educativos [1, 2, 3, 4, 5]. Nas OCEPE, a utilização de imagens surge nas diversas áreas de conteúdo, com relevo particular na Área de Expressão e Comunicação. É realçada a importância das produções das crianças, assim como da observação dessas e outras imagens, e os seus benefícios a nível dos diversos saberes, da imaginação e criatividade, da sensibilidade estética, da linguagem oral e abordagem à escrita, etc.

7 sugestões para a utilização de imagens

  • As imagens realistas, expostas ao nível do olhar da criança e em diversos locais, podem estimular conversas entre as próprias crianças, entre crianças e adultos, ampliando experiências e, globalmente, o conhecimento do mundo [1, 4]. Os mobiles ou outros objetos suspensos podem complementar as imagens colocadas nas paredes, no chão, nos móveis [1, 2].

  • As imagens podem representar a sequência de rotinas, os comportamentos desejados [e.g., 6] e podem ser utilizadas em atividades de artes visuais, jogo dramático, música e dança, numeracia e literacia, etc. [e.g., 4, 6].

  • As fotografias e outros registos visuais apoiam a documentação pedagógica, com vários propósitos (e.g., construção de portefólios, preparação de um jornal de parede, avaliação formativa dos progressos das crianças) [7, 8, 9]. Afixar fotografias tiradas na creche/JI e as produções das crianças permite o registo contínuo, e partilhado, do que é feito com/pelas crianças. À medida que se expõem as imagens e as produções das crianças, o próprio projeto da sala vai sendo construído, com a participação das crianças e com espaço para que surjam novas ideias.

  • Utilizar as fotografias tiradas pelas próprias crianças pode ser uma estratégia para promover a sua participação em decisões de sala e na construção de projetos.

  • Fotografar na sala pode ser divertido e é uma forma de mostrar à criança que o que ela está a fazer é importante, aumentando o sentimento de pertença [8]. A projeção de fotografias, diária ou semanalmente, é uma forma de rever o que se vivenciou (como “diário” do grupo) [9].

  • Utilizar imagens variadas, não estereotipadas, pode apoiar a compreensão da diversidade e a inclusão, pois mostra às crianças pessoas, locais e práticas culturais que possivelmente nunca viram (e.g., pessoas de outras etnias, profissões, tradições) [3, 6].

  • As fotografias podem ser utilizadas na comunicação com as famílias: enviadas da creche/JI para casa e de casa para a creche/JI, estabelecem uma forma de comunicação apelativa e fortalecem a parceria. Também podem ser utilizadas para partilhas entre salas [7].

Embora a riqueza visual seja valorizada, o espaço deve continuar a ser amplo e desafogado, para que se evite cair na situação oposta à da sala que a educadora Daniela encontrou. Ter uma sala demasiado cheia de materiais, com todas as paredes excessivamente ocupadas, pode tornar-se sobrestimulante e cansativo. Assim, é preciso equilíbrio e ponderação. É preciso ainda assegurar questões de ética na utilização da fotografia, sendo que o RGPD pode orientar as práticas. O consentimento escrito, devidamente esclarecido, dos pais é indispensável. A vontade da criança também deve ser respeitada, agindo-se com sensibilidade e consideração. Adicionalmente, a divulgação de fotografias com crianças nas redes sociais online requer cuidados extra, mesmo que haja o referido consentimento escrito das famílias.

Para concluir

as imagens dizem mais do que 1000 palavras, mas podem também ajudar a ensinar mais do que 1000 palavras (e outras competências e conhecimentos)! [8]

Entre na sua sala e caminhe: sente-se tranquila, confortável e o espaço transmite-lhe serenidade? Os materiais estão expostos ao nível do olhar das crianças, são significativos e têm interesse do ponto de vista pedagógico? Como expandem a experiência das crianças ou contribuem para o seu bem-estar e para a comunicação com as famílias? De que outra(s) forma(s) pode utilizar fotografias e outras imagens?

Referências

[1] Copple, C., & Bredekamp, S. (2009, Eds.). Developmentally appropriate practice in Early Childhood Programs. Serving children from birth through age 8 (3rd. Ed.). NAEYC.

[2] Harms, T., Cryer, D., & Clifford, R. M. (2006). Infant/toddler environment rating scale–revised edition, updated. New York: Teachers College Press.

[3] Instituto da Segurança Social (2010). Manual de processos-chave: Creche. Disponível em https://seg-social.pt/publicacoes?kw=creche

[4] Lopes da Silva, I., Marques, L., Mata, L., & Rosa, M. (2016). Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar. Ministério da Educação, Direção-Geral da Educação (DGE). Disponível em https://www.dge.mec.pt/orientacoes-curriculares-para-educacao-pre-escolar

[5] Oliveira-Formosinho, J., & Araújo, S. B. (2018, Eds.). Modelos pedagógicos para a educação em creche. Porto Editora.

[6] PBS-ECEC Consortium (2023). Promoção de Comportamentos Positivos em todo o jardim de infância. Módulos de formação. Disponível em https://pbs-ecec.ese.ipp.pt/course/index.php?categoryid=3

[7] Matsumoto, H., Nishiu, H., Taniguchi, M., Kataoka, M., & Matsui, G. (2023). Pedagogical photo documentation for play in early childhood education and care. Early Years, 43 (4-5), 794-810, DOI: 10.1080/09575146.2021.2017407

[8] Byrnes, J., & Wasik, B. A. (2009) Picture this: Using photography as a learning tool in early childhood classrooms. Childhood Education, 85(4), 243–248. DOI: 10.1080/00094056.2009.10523090

[9] Walkers, K. (2006). Capture the moment: Using digital photography in early childhood settings. Available at https://files.eric.ed.gov/fulltext/ED497542.pdf

O poder das imagens nas salas de creche e de jardim de infância

Sílvia Barros

É professora na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto, na área de Psicologia. Tem doutoramento em Psicologia pela Universidade do Porto. Os seus principais interesses de investigação incluem: qualidade dos contextos de educação e cuidados, interações adulto-criança, envolvimento das crianças, formação de profissionais de educação de infância.

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