São 9h00 e o dia na sala da educadora Maria começa com um caloroso momento de acolhimento, no qual todas as crianças estão sentadas, em círculo, na manta. Depois dos “bons dias” e de alguma conversa, a educadora inicia uma atividade de leitura de histórias. Quanto tempo deverá demorar esta atividade? Será que as crianças vão estar interessadas e envolvidas? E se apenas algumas crianças estiverem interessadas?

Alguns estudos têm analisado a forma como as crianças passam o tempo no jardim de infância, destacando que a ação intencional dos/as educadores/as de infância no planeamento e definição do tempo e da organização do grupo nas atividades contribui para um ambiente de elevada qualidade, bem como para o para o bem-estar, o envolvimento e o desenvolvimento de todas as crianças1;2;3.

Mas o que sabemos sobre como é passado o tempo em jardim de infância? Como é organizado o grupo nas atividades ao longo do dia?

As formas de organização do grupo mais frequentemente observadas no jardim de infância incluem: atividades de grande grupo e/ou pequeno grupo, geralmente dirigidas pelo adulto; atividades de jogo livre, geralmente escolhidas pelas crianças; e atividades de rotina, como transições e refeições4.

Num estudo recente em Portugal5;6, o papel da organização do grupo nas atividades foi analisado em salas de jardim de infância inclusivas. Tentando captar a diversidade das características das crianças que frequentam uma mesma sala, este estudo observou, em cada uma das salas participantes, crianças com desenvolvimento típico, crianças em risco, e crianças com incapacidades (a receber, na altura, apoio ao abrigo do DL 3/2008 e/ou pelas equipas de intervenção precoce). Os resultados destacaram que:

  • as crianças passaram, em média, cerca de 50% da manhã em atividades de grande grupo;
  • todas as crianças estiveram com níveis mais baixos de envolvimento durante as atividades de grande grupo;
  • todas as crianças estiveram mais envolvidas nas atividades de jogo livre ou de pequeno grupo, não se tendo encontrado diferenças entre os níveis de envolvimento de crianças com e sem incapacidades nestas atividades;
  • mais tempo em grande grupo revelou ser particularmente negativo para o envolvimento de crianças identificadas como estando em risco;
  • particularmente para crianças com incapacidades, mais tempo em jogo livre parece contribuir, tendencialmente, para o seu maior envolvimento.

Qual é, então, a melhor forma de organizar o tempo e o grupo no jardim de infância?

Recomendações nacionais e internacionais7;9 salientam a importância de o grupo de crianças experienciar diferentes formas de organização nas atividades ao longo do dia, destacando que cada forma de organização do grupo (e.g., grande grupo, pequeno grupo, jogo livre, individual) permite que as crianças desenvolvam diferentes competências4;5;6.

Sabe quais são as formas de organização do grupo que privilegia na sua sala? Já registou quanto tempo passa em cada uma? Não conhecemos a “fórmula mágica”, e não existe qualquer indicação na literatura e documentos orientadores, sobre a quantidade de tempo que deve ser passada em cada um dos formatos referidos. Assim, fica ao cuidado do/a educador/a de infância esta gestão, que deve procurar adequar a rotina e tempos às necessidades das crianças do seu grupo. Deste modo é importante que o/a educador/a:

  • analise o tempo que passa em cada formato de atividade e observe os indicadores de envolvimento de cada criança nos diferentes formatos;
  • planeie de forma intencional a organização do grupo e o tempo das atividades, de acordo com as necessidades das crianças no seu grupo;
  • preste atenção às suas interações com as crianças ao longo do dia, garantindo que, independentemente de estarem em grande grupo ou jogo livre, as suas interações são calorosas, responsivas e tomam em consideração as perspetivas das crianças.

Já ponderou a utilização mais frequente da organização de pequeno grupo para atividades estruturadas? A investigação tem demonstrado que, quer em creche, quer em jardim de infância, este formato parece estar associado a um maior envolvimento das crianças.

Ao refletir sobre as implicações do papel do tempo e da organização do grupo nas atividades para o envolvimento de cada criança, ajustando as suas práticas, estará a contribuir para uma maior qualidade das experiências educativas das crianças na sua sala.

Como é passado o tempo na sua sala? Partilhe connosco a forma como organiza o seu dia e as estratégias que utiliza para encontrar o equilíbrio entre os diferentes tipos de organização do grupo nas atividades de modo a potenciar o envolvimento das crianças.

Referências

[1] Kontos, S., Burchinal, M., Howes, C., Wisseh, S., Galinsky, E. (2002). An eco-behavioral approach to examining the contextual effects of early childhood classrooms. Early Childhood Research Quarterly, 17:239–258. https://doi.org/10.1016/S0885-2006(02)00147-3

[2] Goble, P., & Pianta, R. C. (2017). Teacher-child interactions in free choice and teacher-directed activity settings: Prediction to school readiness. Early Education & Development, 28(8), 1035–1051. https://doi.org/10.1080/10409289.2017.1322449

 [3] Fuligni, A. a., Howes, C., Huang, Y., Hong, S. S., & Lara-Cinisomo, S. (2012). Activity-settings and daily routines in preschool classrooms: Diverse experiences in early learning settings for low-income children. Early Childhood Research Quarterly, 27(2), 198-209. https://doi.org/1.1016/j.ecresq.2011.10.001

 [4] Early, D. M., Iruka, I. U., Ritchie, S., Barbarin, O. A., Winn, D. C., Crawford, G. M., & … Pianta, R. C. (2010). How do pre-kindergarteners spend their time? Gender, ethnicity, and income as predictors of experiences in pre-kindergarten classrooms. Early Childhood Research Quarterly, 25(2), 177-193 https://doi.org/11016/j.ecresq.2009.10.003 

[5] Coelho, V., Cadima, J., & Pinto, A. I. (2019). Child engagement in inclusive preschools: Contributions of classroom quality and activity-setting.  Early Education and Development, 30(6), 800-816. https://doi.org/10.1080/10409289.2019.1591046

[6] Coelho, V., Cadima, J., & Pinto, A. I (set/dez 2018). O tempo passado em diferentes formatos de atividade em contextos pré-escolares inclusivos: relações com a qualidade das interações e com o envolvimento das crianças. Cadernos de Educação de Infância (CEI). Associação de Profissionais de Educação de Infância (APEI).

[7] Silva, I. L., Marques, L., Mata, L., & Rosa, M. (2016). Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar. Ministério da educação: Direção Geral da Educação. Lisboa:Portugal.

[8] NAYEC: National Association for the Education of Young Children (s.d.). https://www.naeyc.org/

Demasiado tempo em grande grupo? Vale a pena pensar nisso…

Vera Coelho

Mestre e doutorada em Psicologia pela Universidade do Porto, com especialidade em Psicologia da Educação pela Ordem dos Psicólogos Portugueses. Docente no Instituto Universitário da Maia, colabora em vários projetos na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto e na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto. Tem como principais interesses de intervenção e de investigação as questões relacionadas a qualidade dos contextos de educação pré-escolar, a educação inclusiva e a intervenção precoce na infância.

4 comentários sobre “Demasiado tempo em grande grupo? Vale a pena pensar nisso…

  • 26/02/2020 at 13:59
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    Por sentir que o acolhimento feito em grande grupo não permitia responder às necessidades das crianças e dos pais,em especial às crianças que transitaram da sala de AAAF e estavam já há algum tempo em grande grupo (a ver televisão ou a cantar) é que há uns anos iniciei o acolhimento ser feito logo com as escolhas livres das atividades de preferência, deixando-me mais disponível para receber quem vinha com mais necessidade de atenção individual. Enquanto a maioria das crianças está de forma autónoma a fazer escolhas e a preparar materiais, a convidar amigos para as atividades, eu vou dando um colinho, dois dedos de conversa às famílias ou apoiando a organização das crianças. Corre lindamente!

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    • 01/03/2020 at 21:46
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      Cara Arminda,
      Muito obrigada pela sua partilha. A reflexão sobre as necessidades do seu grupo, e a forma como adaptou a rotina da sala para lhes dar resposta, é essencial para garantir o envolvimento das crianças ao longo das atividades.

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  • 26/02/2020 at 14:46
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    Ao fim de quase 4 décadas de experiência, cada vez privilegio mais as atividades livres, ao longo das quais me aproximo de uma ou várias crianças com quem pretendo interagir. O tempo de grande grupo tem de ser de acordo com a idade e capacidade de atenção das crianças daquele grupo, em concreto. A minha intencionalidade educativa é, cada vez mais, personalizada.

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    • 01/03/2020 at 21:47
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      Obrigada pela sua mensagem. A investigação tem demonstrado que as diferentes organizações do grupo ao longo do dia permitem que as crianças desenvolvam diferentes competências importantes para o desenvolvimento e aprendizagem. A intencionalidade e a individualização das práticas para dar resposta ao grupo, e a cada criança, são fundamentais.

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