Existem cerca de 86 milhões de deslocados no mundo. A Ucrânia, a Síria e a Venezuela são os países com maior número de deslocados. Destes, 40% são crianças com menos de 12 anos. Portugal recebeu, recentemente, um elevado número de crianças e famílias deslocadas da guerra da Ucrânia e Síria, e refugiadas do Afeganistão e Venezuela. O que sabemos sobre estas crianças? Como podemos ajudar?

Importa distinguir crianças deslocadas, refugiadas, vítima de guerra ou “usadas” na guerra. Crianças deslocadas fogem de zonas de conflito para garantir a sua integridade física, moral e psicológica. A mudança é abrupta, súbita e drástica. O êxodo leva à perda de contacto com familiares, amigos, educadores, locais e espaços afetivos, brinquedos, rotinas, cheiros, ritmos, … com as crianças a serem transportadas para outros países, línguas e culturas. É o caso da maioria das crianças ucranianas recentemente chegadas a Portugal: fogem do seu país antes da guerra chegar à sua localidade. Os refugiados não são apenas deslocados, são alvos preferenciais caso permaneçam nas zonas de conflito, como é o caso das meninas afegãs. Algumas crianças presenciaram a guerra, a morte, a dor, a tortura, a violência, e o pânico, são vítimas de guerra. Por fim, o último e pior nível de trauma de guerra, ocorre quando as crianças são usadas na guerra passivamente (por exemplo como escudos humanos) ou ativamente como soldados ou mártires. Nesta última condição, as crianças são ensinadas a odiar, a matar ou morrer por causas fora da sua compreensão. 

Deslocados, refugiados ou vítimas de guerra vivem experiências dolorosas e traumáticas. A literatura sobre a guerra e a infância indica que estas experiências afetam negativamente a aprendizagem, o desenvolvimento, o cérebro (com diminuição das dimensões do cérebro e lesões pré-frontais), o bem-estar psicológico, a saúde física e mental. A produção prolongada e intensa de cortisol para responder ao risco, ao stress e para autodefesa deixa de ser uma resposta protetiva adequada e necessária para se transformar em stress oxidativo e tóxico que afeta, assim, a morfologia do cérebro da criança.

A investigação sobre o risco associado ao trauma de infância indica que o gradiente de exposição é um fator importante: em quantidade de tempo, proximidade e intensidade. Quanto mais longa, mais próxima e mais intensa a experiência, piores e mais duradouras podem ser as consequências negativas. Por exemplo, após um atentado a uma escola nos EUA verificou-se que quanto próximas fisicamente estavam as crianças do atacante maior e mais duradoura foi a sua resposta de stress pós-traumático. É, importante, no trabalho com estas crianças conhecer o tempo de exposição, a proximidade e a intensidade das experiências.

Estudos longitudinais dedicaram-se a compreender a resiliência em crianças que viveram em abrigos, sobreviventes de ataques terroristas, de guerra, de desastres naturais, e de outras situações extremas e verificaram que a principal fonte de resiliência é a unidade da família e a relação com os pais. Quando a família sobrevive e os pais continuam a amar e a proteger, a resiliência é possível, tanto em termos de saúde mental, saúde física e desenvolvimento. O filme A vida é bela é um exemplo artístico deste resultado científico. Importa considerar que muitas crianças deslocadas (Ucranianas por exemplo), têm pais, irmãos e avós na guerra. Enquanto a família não está reunida, a adaptação e a resiliência perigam. Estas crianças vivem repartidas entre a sua vida em Portugal e a família fora e em perigo.

Os modelos de desenvolvimento da resiliência procuram estudar o percurso das crianças antes, durante e após os eventos traumáticos. Algumas crianças mantêm o mesmo nível de bem estar e desenvolvimento (acontece sobretudo quando a exposição ao perigo é baixa ou curta, a unidade familiar preservada, as relações familiares positivas, e o contexto de acolhimento é de qualidade); algumas crianças pioram significativamente (algumas recuperam mais tarde quando os serviços de emergência e educativos nos países de acolhimento respondem adequadamente); e outras melhoram após o perigo (tal acontece quando as condições de elevado risco vividas nos países de origem se tornaram visíveis e são apoiadas no novo contexto – pode ser uma melhoria transitar para um novo país e realidade). No acolhimento, é preciso compreender o percurso e condições de vida da criança previamente à guerra e não assumir nenhum dos percursos de desenvolvimento anterior

Por fim, importa sublinhar que, para além de fatores protetores (passíveis de promoverem a resiliência), existem fatores moderadores que podem potenciar variáveis positivas já existentes na vida das crianças. Saiba que entre os potenciais fatores moderadores está a qualidade do contexto educativo de acolhimento e da relação com as/os educadoras/es.

 Como ajudar?

– Privilegiar as relações – a sensibilidade, o afeto e a gentileza para ajudar recuperar a segurança afetiva. A investigação indica que as crianças que recuperam melhor ou que ultrapassam mais rapidamente a experiência de guerra, granjeiam as seguintes noções internas “Estou a salvo. A minha família está a salvo. Posso voltar à escola (até as crianças que não gostam da escola, nestes períodos querem regressar). Posso voltar a brincar. Os adultos vão voltar a organizar tudo de novo (mesmo que seja com outra organização).”

– Não simplificar em demasia: a mera inclusão destas crianças na escola não resolve a transição abrupta das suas vidas ou as perdas sentidas. É importante procurar conhecer o percurso, história familiar e antecedentes de desenvolvimento e aprendizagem da criança. Dar tempo e observar. Algumas respostas traumáticas revelam-se alguns meses após a entrada na escola. Lembre-se que enquanto a sua família não estivera salvo e reunida, a criança dificilmente se sentirá bem.

– Conhecer e desenvolver uma aliança com os familiares da criança permite reunir informação, combinar e implementar estratégias conjuntas. A investigação tem indicado que a exposição aos media pode ser um fator de risco adicional. Em crianças que veem e reveem as imagens ou reportagens de guerra, tendem apresentar mais sintomas de stress pós-traumático e por mais tempo. Pode conversar sobre este e outros temas com as famílias

– Evitar estímulos que podem desencadear respostas de medo. Uma educadora mudou as refeições para o espaço de sala, depois de observar que uma criança vítima de guerra se refugiava debaixo da mesa e tapava os ouvidos quando ouvia o barulho metálico das colheres e dos pratos no refeitório.

– Os estudos sobre a intervenção com estas crianças, indicam que melhores resultados são obtidos em momentos individualizados diários. Igualmente, foram obtidos resultados positivos quando as crianças foram ativamente envolvidas em atividades cotidianas (como forma de recuperar controlo): cuidar de um animal, planta, de colocar a mesa, etc.

– Ultrapassar a barreira da língua: existem vários sites oficiais e associações com tradutores disponíveis. Os pais destas crianças podem ajudar. E por fim, pode procurar recolher livros e/ou materiais didáticos dos países de origem.

– Ler e recolher informação. A formação de educadores raramente toca nestes tópicos; por isso, pode ser importante aprender para ajudar. Por outro lado, a investigação indica que quem ajuda também pode precisar ajuda. Lidar com crianças com severos traumas e ouvir as suas histórias também pode ter impacto nos profissionais. Assim, a ajuda de especialistas e a partilha de experiência com outros colegas também pode ser útil.

Gostaríamos de ouvir a sua experiência, e associarmo-nos no debate de ideias. Vai ser preciso uma aldeia (ainda maior) para educar cada criança!

Bibliografia aconselhada

Informação da DGE para A INTEGRAÇÃO DE CRIANÇAS REFUGIADAS NA EDUCAÇÃO PRÉ-ESCOLAR: https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Projetos/Criancas_jovens_refugiados/integracao_de_criancas_refugiadas_na_educacao_pre-escolar.pdf

Block, K., Cross, S., Riggs, E., & Gibbs, L. (2014). Supporting schools to create an inclusive environment for refugee students. International Journal of Inclusive Education, 18(12), 1337-1355. https://doi.org/10.1080/13603116.2014.899636

Brough, M., Gorman, D., Ramirez, E., & Westoby, P. (2003). Young refugees talk about well-being: A qualitative analysis of refugee youth mental health from three states. Australian Journal of Social Issues, 38(2), 193-208. https://doi.org/10.1002/j.1839-4655.2003.tb01142.x

Piñeros-Ortiz, S., Moreno-Chaparro, J., Garzón-Orjuela, N., Urrego-Mendoza, Z., Samacá-Samacá, D., & EslavaSchmalbach, J. (2021).Consecuencias de los conflictos armados en la salud mental de niños y adolescentes: revisión de revisiones de la literatura. Biomédica, 44, 424-48. https://doi.org/10.7705/biomedica.5447

Reynolds, A.D., & Bacon, R. (2018). Interventions Supporting the Social Integration of Refugee Children and Youth in School Communities: A Review of the Literature. Advances in Social Work 18, 745–766. https://doi.org/10.18060/21664

Outros links úteis:

https://marinagfuertes.wixsite.com/my-site/links-%C3%BAteis

Crianças deslocadas: “Fugi da Guerra mas ainda não me sinto a salvo”

Marina Fuertes

Marina Fuertes é Professora Coordenadora com Agregação da Escola Superior de Educação (Instituto Politécnico de Lisboa) e membro integrado do Centro de Psicologia da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP). É doutorada e mestre em Psicologia com pós-doutoramento na Harvard Medical School. Obteve vários financiamentos e prémios científicos tendo publicado diversos artigos – recentemente na Developmental Psychology.

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