As interações e relações sociais contribuem, de forma única, para o desenvolvimento das crianças. No jardim de infância, muitas crianças são expostas, pela primeira vez, a um elevado número de pares, fora do contexto familiar. Nestes contextos, são estabelecidas diversas dinâmicas sociais complexas e as crianças passam, progressivamente, de uma brincadeira solitária para uma brincadeira interativa e recíproca, que exige competências sociais como a cooperação e a partilha [1]. Neste âmbito, a competência social é o reflexo direto da eficácia e adequação das estratégias sociais ao contexto [2].  

No grupo de pares, as crianças (entre os 3 e os 5 anos) desempenham três tarefas sociais de alguma complexidade: conquistar a entrada na brincadeira, manter a brincadeira e resolver conflitos que possam emergir nesse contexto social [3]. De seguida são apresentadas as estratégias sociais utilizadas no âmbito destas tarefas sociais:

Estratégias sociais de iniciação e envolvimento na brincadeira

As estratégias eficazes de entrada para o grupo de pares são tipicamente caracterizadas pelo estabelecimento de um quadro de referência partilhado com crianças que já estão envolvidas na brincadeira, exibindo interações sociais relevantes e sincronizadas. Para a criança entrar na brincadeira, primeiro tem de perceber os temas específicos, através da observação da atividade em curso [3]. As crianças que são bem-sucedidas seguem as suas observações da situação e adotam comportamentos semelhantes ao grupo (comportamentos harmoniosos), ou seja, utilizam estratégias de iniciação harmoniosa [2,4]. As estratégias escolhidas são particularmente comportamentos não-verbais e passivos (por exemplo, imitar aspetos do jogo). Podem ser também utilizadas estratégias de iniciação ativa, em particular, comportamentos verbais e ativos (por exemplo, pedir diretamente para participar na brincadeira) [4].

Como consegue a criança iniciar e envolver-se na brincadeira?

  • procura a atenção de outras crianças (contacto ocular, toque, gestos),
  • escolhe diferentes companheiros de brincadeira,
  • faz perguntas sobre determinada brincadeira e partilha informação relevante,
  • pede a outras crianças para participar na brincadeira,
  • brinca perto de outras crianças usando brinquedos semelhantes,
  • mostra ou oferece brinquedos a outras crianças.

Estratégias sociais de manutenção da brincadeira

As estratégias eficazes para a manutenção da brincadeira envolvem comportamentos sociais que sustentam a função e a estrutura da brincadeira. A capacidade da criança para manter a brincadeira com os pares é considerado um verdadeiro desafio à sua competência social. Efetivamente, a manutenção da brincadeira requer que as crianças compreendam e adiram aos temas da brincadeira e à estrutura da atividade e lidem com mudanças dos padrões de brincadeira, com as exigências dos pares e com uma série de outras tarefas sociais, como a resolução de conflitos [2]. As crianças que são bem-sucedidas conseguem lidar com estes desafios, sem permitir que a interação termine [2].

Como consegue a criança manter a brincadeira?

  • pede e partilha brinquedos com as outras crianças de forma adequada,
  • pede ajuda a outras crianças,
  • responde a pedidos das outras crianças,
  • convida outras crianças a participar na atividade,
  • adapta a brincadeira às necessidades e iniciativas de outras crianças,
  • dá e espera a sua vez.

Estratégias sociais de resolução de conflitos

As estratégias eficazes de resolução de conflitos requerem uma variedade de trocas sociais conciliatórias, sendo utilizadas tanto na entrada na brincadeira, como na manutenção da brincadeira [2].

Como consegue a criança resolver conflitos?

  • permanece nas proximidades e volta a interagir rapidamente,
  • modera ou atenua os seus pedidos (por exemplo, diz “por favor”),
  • dá uma sugestão alternativa ou chega a um compromisso,
  • dá uma razão para os seus pedidos ou recusas,
  • procura informação acerca dos motivos e interesses das outras crianças,
  • aceita as propostas das outras crianças.

Como procura ajudar as crianças a iniciar a brincadeira, a manter a brincadeira e a resolver conflitos? Partilhe connosco as suas estratégias.

Referências

[1] Fabes, R. A., Martin, C. L., & Hanish, L. D. (2009). Children’s behaviors and interactions with peers. In K. H. Rubin, W. M. Bukowski, & B. Laursen (Eds.), Handbook of peer interactions, relationships and groups (pp. 45-62). New York, NY: Guilford Press.

[2] Guralnick, M. J. (1992b). Assessment of Peer Relations. Seattle, WA: Child Development and Mental Retardation Center, University of Washington.

[3] Guralnick, M. J. (1992a). A hierarchical model for understanding children’s peer-related social competence. In S. L. Odom, S. R. McConnell, & M. A. McEvoy (Eds.), Social competence of young children with disabilities (pp. 37-64). Baltimore, MD: Paul H. Brookes.

[4] Fialho, M., & Aguiar, C. (2017). Escala de Avaliação das Estratégias Sociais: Um estudo de validação com crianças em idade pré-escolar. Análise Psicológica, 1, 101-115.

Entrar na brincadeira e continuar a brincar: As estratégias sociais no grupo de pares

Margarida Fialho

Mestre em Psicologia Educacional, os principais interesses de investigação centram-se na qualidade da educação na primeira infância e no desenvolvimento social e emocional das crianças (em particular, as competências sociais, a aceitação social e a regulação emocional).

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